hibernação





Aqui o dia acordou preguiçoso, nublado, frio e molhado. Hoje, não há trilhas, não há passeios no Parque, não há roupas no varal.

Acordei imitando o dia. Amanheci tão preguiçoso quanto. Dei preferência a ler deitado na cama. 


Enquanto lá fora uma chuvinha era embalada pelo vento, eu, em meu quarto, viajava em crônicas de Rubem Braga – um dos maiores cronistas do século vinte e de minha juventude. Gosto de ler ou reler meus autores preferidos. Como também gosto em dias nostálgicos, como os de hoje, sorver bem devagarzinho, assoprando, miudinho, a borda da minha caneca vermelha, na esperança de não ser queimado pelo chocolate negro e esfumaçado. Em dias frios o cacau me ganha. Rendo-me à cobiça e  à gula. Torno-me um devorador de guloseimas, e, sem o menor pudor, rolo no chão com uma formiga, por uma migalha de chocolate que por ventura caia de minhas mãos. Fantasio-me de velho inglês e escondo os meus chocolates debaixo do travesseiro, e, se eu o bebesse, esconderia na gaveta da cômoda uma bela garrafa de conhaque, com certeza.


Sim, o frio derrete a minha capa de samaritano e desvenda o meu lado sovina que sempre permanece em estivação por três estações. O frio devolve-me a capa de avaro e saio voando por aí, com a mochila cheia de bombons escondidos. O meu poder está no açúcar; a minha força está no chocolate.


Foi este dia mais curto que me encolheu e me deixou mais egoísta com a minha caneca de chocolate quente.


Continuei a ler Rubem Braga e a voltar no tempo, sem me importar com o que estava acontecendo a minha volta. Um tempo que as minhas únicas preocupações eram não tirar notas vermelhas e não dizer palavrões perto de meus pais, esta última quase impossível de cumpri-la, e, quase sempre diminuía a grana do cinema aos domingos, onde meu colo ficava mais leve de balas e de chocolates.



Voltei à realidade com o telefone tocando estridentemente:


- Como está o tempo aí na serra?


- Friiiiioooo!


- Aqui chove.


- Aqui também, uma chuvinha de se esconder debaixo das cobertas.


- Tem vinho?


- Tenho. Sempre tenho.

(risos)

- Acordei com saudade desse frio serrano.


- Então venha.


- Posso?

(riso)

- Claro! Pode sempre.


Voltei à minha leitura e ao meu líquido precioso e energético. E naturalmente viajei no tempo mais uma vez. Viajei, em lembranças, quando em dias nublados não nos impedíamos de cumprir com o combinado. Não havia tempo ruim. E se não podíamos sair por um motivo ou outro, tínhamos a música no rádio, os jogos de tabuleiro e os livros.


Sabia que não podia ficar na inércia tão desejada por todo o dia. Mas, adiei o máximo o levantar-me e sair de minha preguiça quase judia.


Olhei para fora da janela e vi uma esperançosa nesga azul rasgando aquele cinza celestial. Resolvi, então, antes de minha visita chegar, comprar o que faltava nesta casa de um dono só.


Queijos, pastas, pães e mais vinhos. Depois das compras feitas, restou-me um tempo para um curto passeio pelas ruas da cidade num sábado vestido de roupas de lã.


Agora, enquanto espero a tarde acabar e a noite chegar com a lua escondida entre nuvens, escrevo este texto e percebo que nada mudara em mim, em dias preguiçosos. Continuo cumprindo com o combinado e não tem tempo ruim que me impeça de realizá-lo, mas, caso por um motivo o outro não o faça, tenho sempre música boa, vinhos e uma coberta quentinha pra espantar o frio.


Acordei como o dia de hoje: um amanhecer preguiçoso e choroso, transformado em uma leve tarde prata, rajada de um esperançoso azulzinho claro, prometendo uma noite marinha estrelada e com a lua prateada pela metade.


Nossa! Esqueci-me de guardar no fundo da gaveta a caixa de chocolate belga comprada esta tarde.






Paulo Francisco





Chocolate by Jorge Ben Jor e Tim Maia on Grooveshark



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