tradução


Transborda em palavras
soltas
em versos
soltos
em textos
livres
o que em mim represa

Segue em trajetórias
indefinidas
em percursos
mistos
em caminhos escuros
o que de mim escorre.

Risco nas pontas dos dedos
o tracejado a ser seguido.
[mesmo que eu não o siga]

Urbes iluminadas - Florestas encantadas
Campos verdes - Montanhas acinzentadas
Céus azulados - Oceanos esverdeados

- Transito pelas cores emergidas
do obscuro labirinto de cada sítio citado.

- Trafego à procura da realidade
 em noites frias e desnudas de fantasmas.

[eu sou o próprio fantasma!]

Calo-me diante do Tempo
- o meu silêncio é alado -
Voo em pensamentos lentos
em suaves batidas de asas
para não espantar o vazio.

[ainda preciso voar - quero vento]

Exilo-me temporariamente
num templo abstrato e frio.

Oculto-me em palavras
soltas
em versos
brancos
em frases
feitas.

- Quem tu serás?

Pergunto-me todas as manhãs
quando acordo - quando acordo.

[e quem serei eu de verdade...]

 - Quem tu foste?

Interrogo-me todas as noites
ao deitar-me – quando deito-me.

[Nasço e morro a cada dia vivido?!]

Não há sombras macias na ausência do sol
- somente aquelas que assombram em noite de lua.

Meus mares inventados - meus dias sofridos

Minhas noites arrastadas - minhas tardes esquecidas.

Introspecção simplesmente?! Intrinsecamente perdido?!
Extrinsecamente à vontade?! Ou puramente loucura?

Sou louco ao navegar em brumas assopradas pelo vento?
Sou mitológico com minhas metades absurdas?

Ah, quem dera eu fosse um louco mitológico!
Um argonauta invasor de corações.
Um pássaro azul a cantar à sua amada.

[mas não sou]

Minhas palavras jorram a esmo
tingindo o céu além do azul
flutuam como pequenas balsas
colorindo águas salgadas e alheias.

Minhas palavras revelam-se
em dores
em cores
em amores
em imensidão.

Construo as minhas próprias telas
- sou aprendiz de aracnídeo
que constrói e se alimenta
de suas próprias teias.

Durmo no visgo das palavras
grudo-me a elas e crio-me
uma segunda pele.
Pele esta que me protege
da acidez que sai do aguilhão
implantado no meu corpo
frágil de escorpião.

Transmuto-me em outros
em outros seres
em outras coisas
                - abstratas, surreais ou concretas.
                                  [tanto faz]

Grito!

          grito ao vento                            
                       grito ao mar

                                                Grito!

espano
              espalho
                            palavras

Desfaço-me e navego
cego
livre
brumoso
ao léu.

Sou o bem?
Sou o mal?

- sou, sou sim, sou ambos!

metade bicho/ metade homem
metade sol/ metade lua

E com as minhas metades
torno-me inteiro.

- E inteiro permaneço completo?

Ah, o ciclo nunca se fecha ainda vivo

Vivo e refaço-me a cada instante

e neste instante as nuvens passam,
o vento passa, a noite acaba,
e a claridade chega através do dia.

Há sol
         há cores
                     há vidas

E neste instante termino o texto.
- Tenho que dormir.


Paulo Francisco

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