Varal de cores

Pendurei, em meu varal, as cores existentes.
O sol e o vento deram-nas o brilho e a leveza,
respectivamente.
Foram mais de cem as cores escorridas.
Algumas, eu sei, repetidas insistentemente.
Mas, ai meu Deus, se não fosse assim...
O que seriam de minhas dores?
O que seriam de meus amores?
Das paixões enlouquecidas?
Das tardes entristecidas?
Da sede e da fome de todos os dias?
O que seria de Sicrana?
O que seria de Fulana?
O que aconteceria com Beltrana!?
E o que seria de mim, se não houvesse
as cores a pendurar;
se tudo fosse monocromático,
monótono, sem o tingido repentino?
Pendurei em meu varal, as cores esticadas
caprichosamente.
Criei um labirinto de cores
Mosaicos sortidos - uns divertidos
outros nem tanto.
E a cada cor, uma surpresa pendurada,
balançando ao vento, refletindo a lua
 em madrugadas de estrelas.
Sim, pendurei-me neste varal e deixe-me levar
pelo senhor vento, doei minha pele ao rei sol,
declarei-me a dama lua,
brinquei com as pequeninas estrelas azuis.
Fui para um lado/Fui para o outro
chorei, sorri, gritei e silenciei-me
em versos.
Fui cúmplice de manhãs densas
Fui duo...
demônio e anjo
mocinho e bandido
rei e rainha
velho e criança
mago e bruxo
arcaico e moderninho.
Sim, fui humano. E como qualquer humano
fui sonhador e obtuso.
Aumentei o volume de rios e de mares
Tingi-os com minhas cores fortes
Deixei-os mais coloridos e mais próximos
de minhas montanhas verdes e marrons.
Peguei algumas cores mágicas e recriei
casas toscas,
palácios mortos,
e bangalôs tristes.
Foi assim que transformei as loucuras de alguns,
os medos de outros e as incertezas de todos,
num imenso arco-íris de setenta mil cores.
Transformei a Senhora de preto
na mulher mais colorida do mundo.
Salpiquei continhas coloridas
na grinalda branca da noiva triste.
Emprestei minhas cores, em quarto de hotéis suspeitos,
às Damas esquecidas.
Mas, como nem todo o dia é dia santo,
 também caí em trevas e em pântanos medonhos.
Cobri-me com a capa vermelha do vampiro
e vaguei em madrugadas escuras,
de lua pequena, à procura de almas perdidas.
Sofri pela ausência de cores e amores.
Sofri pelas dores instaladas.
Às vezes minhas, vezes outras alheias.
Neste meu varal, fui plantador de flores em jardins suspensos.
Reguei-as em tempo seco e colhi - as no tempo preciso.
Pendurei-as por fios invisíveis, preguei-as por pregadores vivos.
Neste meu mundo de cores, vigiei o céu cinzento à procura de chuva.
Protegi, com o meu corpo, as cores mais sensíveis.
Libertei aquelas que mimetizavam asas de borboletas.
As mais coloridas joguei aleatoriamente no ar
transformando-as em flocos reluzentes em noites escuras.
Neste meu varal construído, há a diversidade da vida;
há a dualidade amorosa; há cores e amores permitidos.
Hoje, recolho as cores do varal, dobro-as e separo-as por tons.
Arrumo-as com carinho e guardo-as em poesias.
Poesias azuis.
Poesias verdes.
Poesias amarelas.
Poesias brancas.
Poesias de todas as cores
- ton sur ton
- furta-cor
Matizes delicados na ponta do pincel.
Espectros abstratos hipnotizando a vida.
Hoje, exatamente agora, vejo o varal  
sem enfeites
sem almas
Hoje, exatamente neste instante poético
há a transparência da água-viva enganando os olhos
o agito de um mar revolto balançando os barcos,
o som de um vento ligeiro assustando o mundo,
e a mudez infinita de quem um dia amou...
As cores transcorrem entre os dedos
escapam da alma em fluídos  transparentes
viscosos
navegando em organoides assimétricos e errantes.
E que mais adiante se encontram, se tocam e confabulam.
E nesse exato momento confuso, as cores se misturam
escurecendo tudo.


Paulo Francisco

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