Em ti

Deixa-me!
Grito pronominalmente a ti e ao mundo
Sim, é necessária a separação de tudo
não quero mais  participar de seus delírios
já tenho os meus e, certamente, são muitos
Minhas cores, minhas cores
Meu nome, meu nome
Deixe-me aqui.
nesse deixar transitivo direto de abandono
- Quero-me assim.
Quero mais que tudo ausentar-me
um ausentar de morrer
morrer pra tudo
morrer pro mundo
morrer pra ti
morrer, morrer, morrer
Minha morte, tua sorte
tua morte,minha sorte
teu norte, meu norte
ou qualquer coisa parecida que rime com sorte, morte e norte
Deixo-te aqui, circunstancialmente, dentro deste poema
Circunstancialmente dentro deste dilema
[ poderia  guardá-lo secretamente em minha gaveta. Poderia...
Poderia deixá-lo indiretamente em métricas perfeitas]
- Poderia, mas não vou!
Escrevo a partir de tua deixa, de tua esperança de cores e nomes
Escrevo a partir de tua queixa
Ah, como gostaria de deixar-me solto ao teu colo numa leveza quase infantil
Ah, como eu gostaria de ser um menino ou mesmo um velho caduco
sem  nenhuma referência do mundo, sem entender o mar,
sem saber o que é o amor... Sem entender a transformação do vento
Sem nunca ter sofrido de verdade e que as lágrimas caídas de minha face
fossem apenas lágrimas fisiologicamente salgadas e nada mais.
Mas não! Sou mais que tudo isso.
Entendo os contornos das montanhas, o crescimento da lua
e a mediocridade do mundo.
Entendo a dor da existência, a dor da paixão, a dor do amor,
a dor em viver.  A dor pela dor.
Foram muitas as dores existentes. Quase todas malditas. Quase todas de amor.
Hoje a minha dor é de não poder ter-te em noites frias.
- Dor também maldita.
Sim, dor maldita por não ter-te em mim.
Por não ter-te pura e simplesmente sem dor.
A lua continua em franco crescimento, brilhante num céu lilás
e a cada noite uma parte de sua nudez é mostrada a mim
- somente para mim ela se despe tão lenta e sedutoramente.
Lua - nua, lua-crua, lua - sua, lua - lua... lua - minha.
Ó lua que cresce e míngua em meu colo, que desaparece aos meus olhos
e fragmenta-se em meu corpo quase morto.
Mate-me!
Quando chegar a hora não me deixe definhar em um leito qualquer.
Sequestre-me!
Deixe-me em companhia da lua no cume de uma montanha qualquer.
Nas águas de meu telhado escorrem os sonhos em gotas de chuvas.
Em minha Varanda de cores há flores com gosto de alma
- lembranças de circos e fantasmas multicoloridos.
Em minha casa não há janelas.
 Há portas para que você entre e saia de corpo inteiro.
[Se entras, abraço-te
Se sais, desconstruo-te]
Em minhas paredes não há retratos, há imagens de instantes vistos.
Imagens compradas de artistas tristes.
E o silêncio é rompido pela fúria da voz de quem se perdeu.
E o silêncio fora estabelecido pela voz da cantora morta
que invade todos os cômodos de minha casa vazia de gente.
Ah, morena de sorriso branco, de lábios carnudos e úmidos,
de peitos pontudos e crescidos.
Morena que se arruma, se olhando de corpo inteiro,
no espelho de minha saudade.
Ah, morena que me ensinou a cadência do samba-amor.
Saudade, amor! saudade.
E a lucidez bate em minha porta Insiste em entrar.
Tenta interromper a minha viagem.
[grito] Intrusa!  Ainda não...
Deixe-me aqui em transe. Neste falecimento preciso.
Não há metafísica neste mundo criado
Mas há cores onduladas e fumaças retidas
Há leveza e tontura – sonhos e delírios
Há sim.
Teço palavras incensadas, palavras construídas e inventadas
a partir de minha psicodélicopatia.
Espalho em pequenas borrifadas as minhas alucinações.
Sou um alucinado amoroso.
Amo-te com todas as letras da PAIXÃO.
E sem esse apego profundo, torno-me matéria morna
- quase morta.
Um nada na multidão.
Ah, como é bom sorrir de amor, viver de amor e até mesmo sofrer por ele.
Sofro a cada instante vivido.
Sofro calado.
Sofro miúdo.
Sofro a cada gozo surgido.
Sofro de saudade a cada minuto distante.
Ah, mas como é bom o alívio da existência, da volta, do reencontro, do abraço...
Como é bom o suspiro profundo, a leveza invadindo e arrepiando o corpo.
E o meu corpo que há pouco estava morno – quase morto
ressuscita e aninha em seu colo.
Deixe-me assim: colado, grudado, invasor...
Deixe-me assim:
Amorosamente dentro de ti.
Deixa, amor!?
Deixa...

Paulo Francisco

2 comentários:

Rô... disse...

oi Paulo,

o amor é capaz de transformar tudo,
até o corpo quase morto...
acho que nunca li algo tão profundo que você tenha escrito...

beijinhos

Nelma Ladeira disse...

Nossa Paulo!!
Você se inspirou e foi...
Um texto fabuloso e profundo!!
Fui lendo,lendo e correndo, para chegar ao final e saber na verdade o significado.
Maravilhoso!!
Parabéns amei.
Beijinhos.