Cotidiano II


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Tece a armadilha - dança em agonia 
sem moradia, dorme no chão


Cheira cola, gasolina e outros derivados
- vai ter que experimentar!

Fuma, bebe - mais tarde, quem sabe, pico na veia!
Ninguém sabe o que mais.


É carne semimorta - Alma perdida
E muitos dizem:
- Não, não recupera não! 


É chutado
chupado 
cuspido 
ignorado 
Aprendiz de ladrão!


Ah! Faça a sua parte:
Dê pro seu filho melhores escolas
cursos de idioma - uma conta nova
e um cartão


Resguarde-o num aquário
use vidro fumê no carro
e cubra os olhos com as mãos


[ah! quanta ilusão] 

Puta na esquina - Menina na calçada 
Calça arriada - Quem vai?  Velho-babão 


Mulher maltratada 
Palavras ferinas 
Velados cidadãos 


Boca banguela - Prato de sopa
Con-fra-ter-ni-za-ção 


Agasalhos pro frio 
Brinquedos esquecidos
dentro da caixa de papelão

Dias natalinos - Dimmmm-dommmm!
Oração na igreja 
Missa na capela 
Dundum - no peito 


Na esquina? um corpo no chão

Não é o meu... 
Não é o seu ...


É do filho da puta, da putapolítica, da putamiséria
da vidaputa de quem acorda todos os dias
nessa vida, que não é vadia, pra ganhar o pão.


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Tudo



O sol arde a nuca
e o vento beija a face
O sorriso enche o mundo
e o olhar ilumina dentro
A chuva molha a visão
e a bruma esconde o longe
As mãos tocam o corpo
e os pés pisam fundo
O orvalho encharca o tempo
e a brisa perfuma o ar
As unhas arranham à vontade
E a língua umedece a pele
A montanha grita aos céus
e a relva dança ao amanhecer
Os dedos se tocam
e os joelhos se dobram ao anoitecer
E você ...tudo


Paulo Francisco

Lume


Não quero te perder na escuridão do tempo
Necessito de ti para clarear o meu mundo
Não me deixes antes de tentar me ver
[como pode o barco percorrer tantos rios
e desistir antes de chegar a foz?]
Não quero me perder nas brumas desse caminho
Quero a claridade da lua – ter uma nova jornada.
Não me abandones antes do tempo – preciso da sua voz
Necessito de ti para não desistir
Como pode abandonar aquele que só quer o seu bem?
Não quero me perder na escuridão do tempo
Eu preciso de suas mãos para me guiar nessa estrada
- Eu não tenho o mapa
Não, não quero voltar a ser triste
– o tempo não me perdoará.