O verbo




Palavras isoladas
- significados
Palavras unidas
- sentimentos

Palavras pequenas
- recados
Palavras complicadas
- decretos


Palavras escritas
- mensagens
Palavras faladas
- confissões

Palavras floridas
- paixões
Palavras tremidas
- despedidas

E na lápide
palavras não ouvidas.


Paulo Francisco

Romântico



Escrevo sem pudor
as minhas dores
                 os meus amores
Escrevo sem culpa
os meus desejos
                 as minhas vontades
Sou perverso - confesso
                   me desnudo pra lua
Namoro as estrelas
                   me lavo em águas marinhas

[desprezo as turvas]

Sussurro ao vento
tento...
Encanto o tempo
invento...
Faminto e sedento
sei!
Morrerei de amor.

Paulo Francisco

Amargosamente




A trama estava ali.
Fora construída a passos curtos, numa lentidão imprecisa.
Não era uma teia arquitetônica, escultural.
Não, não era.
Era uma trama confusa amarrada por nós apertados e doídos.
Nós que jorravam um líquido denso e amargo.
Nós que jamais seriam desatados e sim convividos.
A trama estava ali, grudada à pele, envolvendo o corpo, prendendo a alma.
E na mistura desordenada, criou-se uma camuflagem que escondia os mais perversos dos sentimentos.
Seguiu seu caminho tecendo fios, atando nós, prendendo à pele, tatuando a alma.
Seguiu o seu caminho na sua condição naturalmente humana.
Humanamente perversa
Humanamente egoísta
Humanamente medíocre
E assim seguiu até o fim de tudo.


Paulo Francisco



Enamorado



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Ontem acordei como sempre acordei

antes de abrir os olhos, falei o nome dela

e depois escrevi.

Hoje acordei como ontem - pensando nela.

E quando telefonei descobri que ela também pensou em mim.

Esta coisa de amor

de amar e ser amado

de querer e ser desejado

de sonhar e ser sonhado

de viver apaixonado

é tão bom

que dá vontade de cochilar toda hora

só pra acordar e falar o nome dela

Tudo bem, eu pareço bobo                                                        

pareço não,
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Estou!

Estou de bobeira

na dela.

Quer saber!?

Quero viver assim

amando/ querendo ela.

Gosto desta sensação juvenil

Que há muito não acontecia comigo

Sei que corro perigo. Que um dia tudo pode acabar.

Mas enquanto o fim não chega
quero a intensidade de cada segundo vivido                  

recuperar o tempo perdido
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porque sei o mal que faz

não amar e não ser amado.

Dizem que amor rima com dor

Aqui, por enquanto, rima

com cores

com lua

com flor

com céu

com madrugada

com telefonemas inesperados

torpedos enviados

emails secretos

palavras indiscretas e textos codificados

Uma coisa é certa - pode acreditar

Aqui, não digo o nome dela

Por que acredito - sempre acreditei- em mal olhado.

Prevenir não custa nada

Não é mesmo, meu caro?
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Paulo Francisco

Apaixonado







Sabe, não sei o que acontece
mas quando ela fica triste
entristeço-me também
Não sei o que acontece comigo. Fico aqui olhando o tempo
vendo nuvens branquinhas que passam ligeiras num céu de fundo azul
- um céu de outono com raios que douram minha pele

Sim, fico aqui como um bobo pensando em céu e estrelas
esperando ser carregado pelo vento frio
como acontece com as folhas rubras das amendoeiras

Sabe, eu não sei o que acontece comigo
fico paradinho como passarinho olhando pra chuva,
mirando a estrada -  desejando viajar

Sabe, eu não sei mesmo o que está acontecendo
às vezes sinto uma dorzinha bem aqui, no meio do peito.
 Não, não é dor de doer!
É dor de provocar respiração profunda
puxo todo ar que posso
só pra ver se vem junto com ele o cheiro dela.

Eu sei que não é possível!
Mas deixe-me pensar que posso sugar o mundo
engolir estrelas
e lamber a lua

Não ria, você nunca sentiu o que estou sentindo?
Não!?  Ah! Mas é tão bom
da´um friozinho na barriga
uns arrepios repentinos
da pontinha do pé até aqui
na nuca

Ah! Você tem que achar alguém que possa ter fazer feliz
você vai ver como é fácil voar até outros planetas

Sabe, eu não sei o que está acontecendo comigo
Ontem mesmo dei bom dia pra vida
sorri para o gato
beijei uma margarida
e quando percebi estava aqui confessando a você tudo isto

Paulo Francisco

Ternura
























Eu queria fazer pra ti um poema
Construir uma pista estrelar
Ver-te navegar em brumas macias

Eu queria fazer pra ti uma canção
que falasse de mim
de nós
de nosso amor

Eu queria te dá um laço amarelo
e junto a ele meus passos

Sei que é tão fácil presentear-te com lua
com cores
e com estrelas.

Mas sabe, é só com você que eu me sinto assim:
querendo falar de mim
confessar pecados

É só pra você que deixo recado no celular
É só com você que falo de vida
que falo de morte
[tenho sorte
e sou feliz]

Sabe, queria fazer pra ti um novo mundo
sempre teriam flores
a chuva cairia macia
o sol jamais desistiria
a lua não se esconderia
e as estrelas desceriam pra enfeitar o seu caminho

Neste mundo nosso não existiria dor
teriam cores
azul
vermelho
lilás

Neste mundo nosso
serei poeta
você, musa

Neste mundo que construo
seremos duo
não terás portas secretas
nem janelas indiscretas

Este mundo que tanto quero
Quero-te só pra mim.


Paulo Francisco

Pseudosoneto












Não me culpe porque te amarei
Não lhe peço que me ame agora
Ainda não existo em sua memória
Em seu coração sempre estarei

Mesmo que ele não seja eterno
Que este amor seja sincero
Que tenha cheiro de flor do campo
Que seja tudo, que não seja santo

Não me culpe porque te amarei
E se um dia ele for embora
O amor que tanto lhe cantei

Não será sua, não será minha
A culpa do amor que definha
Pois em seu coração estarei




Paulo Francisco

Alma


A resistência heróica de um pardo confiante
Esquecido na bruma macia de uma manhã qualquer
Invade a melancolia gritante dentro de seu próprio ser
Jogado na sarjeta poética numa rima constante
Esbraveja sua dor adormecida no eco da escuridão
Vem em passos largos a procura de algo
Que não está num caldeirão reluzente
Tampouco no celeste amanhecer
Cerra a alma em ilusória cela
Distorcida por ser cambiante
Sofre calado o heróico pardo
Por um amor que não quer esquecer.


Paulo Francisco

Entre mar e céu

Para Maria


Na ausência da existência deste teu céu azul, furto-me do ar que respiro.
Sufoco-me de seu nome até não mais aguentar.
Quero ir para as margens do rio de teu coração.
Na insistência de não querer este meu mar de cores, recorro ao cruzeiro do sul.
Quem sabe assim você me segue neste destino do amor.
Não tenha medo, venha, venha sem pudor, venha na clareza do poeta.
Venha na calada da madrugada, venha no entardecer, não importa, mas venha amanhecer o meu amor.
Estou à espera de você aqui, nesta varanda de flores, nesta rede de sonhos, neste ninho de cores, nesta certeza de amar.
Deixe a incerteza de lado, basta de tessitura, sobrepujemos os pudores e bendigamos os nossos sentimentos.
Traga somente a semente do amor – amanhamos nossos corpos à lua cheia. 
Deixemos reflorescer o que já fora, um dia, mortificado.

E enquanto você não vem, meu amor, fico aqui nesta ilha da saudade, neste atol da vontade, olhando o meu céu de todas as cores, na esperança que surja nas montanhas, você.





Paulo Francisco

Passatempo





Livre - pensamento
Desejo - guardado

Tempo  no tempo
Tempo especifico
Tempo partido

Espaço-tempo
Abstrato-tempo

Tudo há seu tempo

Tempo-tempo


Nada parado
Conjugado no tempo

Parido

Meu tempo
Seu tempo

Tempo-livre
Tempo-guardado
Esquecido no tempo

E eu...
Intemporal


Paulo Francisco

Temporal III









































É chuva miúda que encharca
que apaga marcas deixadas
por queimaduras profundas
- loucuras de amor

É chuva miúda que carrega
consigo a dor de uma paixão
de ilusões adquiridas
em palavras profanas
- foi tudo amor

É chuva miúda que lava
bate na cara – desperta
- pura ilusão

É chuva miúda que não machuca
afoga as mágoas – alivia o peito
desfeito por quem partiu

É água que cai
que descama a pele grossa
saudade não permitida
parida/sofrida

É chuva miúda

É água sagrada

É chuva pedida
bem vinda
que limpa
apaga seu nome
do coração.


Paulo Francisco

Temporal II



Raios e trovões iluminavam e sonorizavam o meu medo
Meu corpo molhado pesava e dificultava o meu caminho
As árvores e os arbustos, antes perfeitos, como obras de Deus,
não passavam de esculturas sombrias naquela noite sem vida.
Não sabia se chegaria; não sabia se conseguiria vencer a água que caía.
Fora tudo de repente. Sem sinais. Sem aviso prévio.
Andava, parava, corria, escorregava e caía.
O que antes estava tão próximo as minhas mãos, ao meu corpo,
agora se encontrava distante, longe de meus olhos.
Raios e trovões iluminavam e sonorizavam o meu medo.
A chuva, insistente, lavava a minha pele, limpava a minha alma.
Aprontava-me, certamente, para o outro dia.
Um dia de sol e brisa.



Paulo Francisco

Medo





Estou preso.
Há uma barreira invisível lá fora
que não me deixa  sair
não é o frio
não é a fina chuva
não é o dia escuro
não é coisa física
tampouco divina
Simplesmente não consigo sair
Algo me impede de chegar lá fora
- sair daqui é a certeza de perder
Mas, perder o quê?
Não sei...
Há algo atemporal por aqui.


 Paulo Francisco

Manhã







A lua hoje não veio. O céu a escondeu em seu manto negro.
E a dama-da-noite, triste por não vê-la, chorou a noite inteira.
O vento – cúmplice do meu silêncio – cantarolou baixinho
uma canção de saudade. Eu a segui em passos lentos;
e as folhagens dançarinas acompanhavam a melodia
em sincronia, fazendo-me companhia.
Cheguei ao meu destino junto à aurora multicolorida.
E, aos poucos, o senhor Sol saudou-me com sua luz.
O vento, que nunca parou, trouxe consigo o cheiro de anis.
E o meu grito de alívio ecoou por todo o Vale.

Paulo Francisco

Meia-estação



Para Lis




Tudo em cima
Firme
Pontudo
Montanhas espetando as nuvens
Luz invadindo as frestas
Fios d´agua ziguezagueando a pele
Chão craquelado por folhas mortas
Tudo em cima
Perfeito
Alegre
Flores desabrochadas
Exalando perfume
Colorindo nossos olhos vertiginosos
Enfeitando nossas almas perdidas
[Ainda é primavera.]

Paulo Francisco


Suplica







Venha! Faça-me ternura, traga-me o aroma da flor.
Vista-se em sorrisos, deixe  o pecado pra depois 
-  expurgue-se de tal sentimento 
- cubra-se de pólen e venha.
Venha com o vento.
Venha a contento.
Façamos estrelas em teto de madeira.
Cavalguemos em campos de linho numa tarde leitosa
transformada em banho de espuma
e as nossas epidermes, em cobertores aquecidos.
Venha... venha sem culpa, sem atino, simplesmente venha,deixe o recato lá fora, desnude-se em atos, traga somente, por ora, vontades a serem cumpridas.
Venha  carregada por libélulas carregadas pelo ar.
Venha coberta de insensatez, mostre-me sua nudez.
Venha, simplesmente venha, e juntinhos ouviremos o vento lá fora,a proclamar ao mundo, a nossa paz. 
Não quero menos que isto.
Não quero menos que lua e estrelas no nosso céu marinho.
Não quero menos que as brumas envolvendo os nossos corpos e lavando as nossas almas.
Não me importa se fado ou tango; se Mozart ou Ravel; se branco ou preto; se Florbela ou Cecília; se Drummond ou Vinicius. 
Quero em quereres mais que Caetano quis.
Venha, meu amor! Faça-me seu.
Assopre o braseiro da existência em mim.
Transforme-me em ex-suicida.
Faça-me chorar e rir de amor. 
Olhe em meus olhos e veja minha alma. 
Cubra-me de lírios brancos - conservemos as margaridas no jardim.
Façamos juras de amor.
Venha, meu amor! Não deixes de vir.
Faça deste amor que é só meu, um amor de nós dois.




Paulo Francisco


Blackbird












E na madrugada de ontem
a ave noturna invadiu meu espaço
feriu meu peito, cantou suave
e voou
E nesta madrugada de peito aberto
fiquei à espera da ave noturna
que não cantou.

Paulo Francisco

Quem sabe?
















Talvez eu fique mudo
guardando comigo
sentimentos e palavras.

Só assim, quem sabe,
você me ouve.

Talvez eu permaneça
parado
impassível

Só assim, quem sabe,
você me veja.

Às vezes é necessário sumir
ficar invisível
ir para uma ilha
desaparecer

nenhuma uma carta
nenhum bilhete

Só assim, quem sabe,
ganho você.



Paulo Francisco

Assim





Hoje eu acordei com vontade de chorar
Não sei por que o coração estava apertado
Eu não estava em mim
Não tinha fome
Não tinha vontade de sorrir

Hoje eu acordei assim
Um tanto tango
Um tanto bolero
Sentia uma vontade imensa de chorar
Não sei por que não reagia
O peito doía
Não queria pensar

Hoje acordei assim
Um pouco prosa
Um pouco poesia
Não tinha vontade de nada
Queria chorar
Doía o peito
Doía a alma
Não era um bom dia
Não sei por que acordei assim

Hoje eu acordei com vontade de chorar
E chorei.

Tudo bem!

Amanhã será um outro dia.
Quem sabe um tango ou um bolero
Um poema numa prosa
E eu acorde com uma vontade imensa de sorrir
Um tanto rock
Um tanto samba.

Quem sabe?




Paulo Francisco

Nostalgia


























Os nossos boleros antigos ecoam na sala quase morta.
Os ouço em tinto tingido, em taça e certezas vazias
Minha alma atingida dança silenciosa-mente
encolhida
          ferida
                num vai-e-vem lento
num sono-lento
                  num sonho quase sofrido

Ouço a última canção do disco
             - nela você está tão próxima
                                        em rodopios infinitos
               que sinto-te tão próxima de mim

[ a música termina e o silêncio retorna ]

Ah! Quero tudo de novo
não me importo/eu suporto
um novo adeus...

Paulo Francisco

Senhores dos mares






Mais de quatro centenas de espécies
Importantes controladores do mar
Eliminam os mais fracos e os doentes
Deixando equilibrada a cadeia alimentar

Senhores dos mares
Com vários nomes
Conhecidos são:
Azul, branco, preto
Raposa, tigre, touro
Tem limão e até salmão

Formato de martelo
A aspereza de uma lixa
Não deixemos de citar
Alguns da grande lista:
Cabeça-chata
Corre-costa
Pontas-negras
Pontas-brancas
Galha-preta
Da Groenlândia

Há quem não acredita
Na gastronomia, quem diria!
É uma iguaria
Apreciado nas mesas
De todos os dias

Na indústria cosmética
O seu óleo é empregado
Nos cremes de beleza
Para rosto delicado

Na indústria farmacêutica
Ele é encontrado
Para melhor terapêutica
Ele é indicado

Tubarão é o grande nome
Desse bicho importante
Conhecido pelo homem
Como aterrorizante


Paulo Francisco

A Girafa



Que esquisito!

Do cruzamento absurdo
De felino com ungulado
Surgiu o engraçado:
Camelo-leopardo

Coitados!

Cometeram um engano
Os antigos romanos
Nem camelo, nem leopardo
Aquele bicho africano

Tem longas pernas
Tem um grande coice
Quase mortal, nunca erra
E ai! Se assim não fosse

Grande velocista
Dana a disparar
Quando avista
Predador se aproximar

Esbelta
Tímida
Calada
É ela – a girafa

Que sorte!

Testemunha
De várias batalhas
Na África do sul
Na África do norte
A malhada sobreviveu
A todas as maldades


Paulo Francisco

Pinguim





Vai entender esse fato!
É terrestre, é aquático
Tem asa, mas não voa
e com elas nada numa boa
Bota ovos pra procriar
Cuida de sua cria
invertendo as tarefas
Come peixes, come krill
e quem sabe plâncton e lulas
Vive numa fria, nunca fica de ¨bode¨
Muita gente nunca viu
- está sempre nas geleiras
E ´por aqui, enfeita a geladeira.


Paulo Francisco

Etéreo



As nuvens caminham silenciosas no céu.
Eu as contemplo silenciosamente do chão.

Elas caminham lentamente pelo fundo azul
e eu também giro grudado ao verde chão.

Assopradas pelo vento se desmancham
em gotículas que caem  serenando a paisagem

refrescando
umedecendo
os meus olhos.

As nuvens caminham pelo céu
                              e eu voo aqui do chão.

Contrários, somos:
       Elas se desmancham em chuva
                                                  Eu me construo vivo.
                              
                               Elas caem derradeiras
                                                   Eu levito em sonhos.
                             
                               Elas renascem a cada dia
                                                    Eu envelheço simplesmente.




Paulo Francisco

Infância




Infância I


São de barro minhas lembranças
bolinhas, bonecos e monstros gigantes
São de vento minhas lembranças
pipa, balão e braços abertos
São de terra minhas lembranças
gude, pião e pés no chão
São de água minhas lembranças
pular na chuva, brincar no tanque.
São de artes minhas lembranças
criança levada e mais nada.







Infância II


Tira o sapato, menino!
Não ande descalço!
Lave as mãos antes do almoço
Não se atrase para o jantar
Sai de cima desse muro!
Cuidado ao atravessar
Coma tudo direitinho
Não repita a sobremesa
Abra a porta do banheiro
Feche a porta da geladeira
Não grite dentro de casa
Fale baixo na igreja!
São algumas frases lembradas
De uma infância passageira.

Infância III

Roupa nova
banho tomado
unhas limpas
cabelos cortados
camisa branca
limpinha!
calça curta
azulzinha!
tanta gente
em seu caminho
Sai daí pessoal!
é o primeiro dia
de uma vida nova
ele vai para escola
vai ser muito legal





Paulo Francisco

Morcego




Com dentes aguçados
de frutos e insetos se alimenta
Está sempre pendurado de cabeça para baixo
tornando mais fácil a sua decolagem
Medo não se deve ter desse mamífero alado
mas o melhor a fazer é não manipulá-lo
Um grande polinizador de flores
um importante semeador de sementes.
Lá na África ocidental, quem diria!
Os morcegos são sagrados.


Paulo Francisco

O Percevejo









Hum! Que cheiro!
O Maria-fedida chegou
É tão repugnante
que ninguém acreditou

Lá vai ele caçando
predando outros insetos
Ajudando o agricultor
num manejo correto

Não se iluda minha gente
tem aquele descontente
que a seiva é sugada
deixando a planta doente

Micetófagos ou algófagos
Tudo bem!
Fungos e algas
eles comem também

Vivem nas matas
em pleno equilíbrio
Mas escondidos
nas casas
Não acredito!
É um perigo!

Hematófagos são eles
de sangue sobrevivem
chupando nossos rostos
doenças nos transmitem

Descobridor do protozoário
instalado no percevejo
chamado de barbeiro
Carlos Chagas
-orgulho brasileiro.



Paulo Francisco

Lavadeira





Na água ele nasce
Por lá permanece
Predador aquático
Nada lhe acontece
Peixinho ou girino
Em sua boca acaba

Sai da água
Adulto se torna
Voa feliz
No lago contorna

Vai à procura de seu jantar
Moscas, mosquitos e outros insetos
Na água, na mata, ou no ar
possui mandíbulas para devorar

De vários nomes é chamado
o predador voraz:
Libélula
Libelinha
Lavadeira
Lava-bunda
Odonata
e outros mais

Mas pouco importa como o chamamos
Ele é importante em seu ecossistema
controlador de vários dípteros
-função de extrema importância-
tornando feliz o homem e quiça outros bichos.



Paulo Francisco

Beija-flor



Quando vejo um beija-flor
Visitando o meu jardim
Vai embora o mau humor
Que estava dentro de mim

Queria ser o beija-flor
Que Cheira o jasmim
Para sarar a dor
De quem está perto de mim.


Paulo Francisco

A mosca













Frequentadoras de vários lugares
Atraídas por determinados cheiros
Só não são encontradas nos mares
Na mata são verdadeiros lixeiros

Na pescaria, a isca tem seu nome
Na pontaria, o melhor lhe acerta
No boxe, seu peso tem o homem
No cinema, a bilheteria é certa

Importante na cadeia alimentar
Adora pousar na sujeira
Em casa vive a nos perturbar

Cuidado! Não dê bobeira
Estou falando das moscas
Doméstica e varejeira

Paulo Francisco

Tamanduá








Ah! Lá vem o tamanduá
Com o focinho no chão
à procura de seu jantar

Formiga é a sua alimentação

Com sua cauda no ar
anda com lentidão

Fica feliz à beça
quando encontra
Cupim de montão.

Paulo Francisco

Gambá
















Ihhhhhhh!
Olha lá um gambá
trepado naquele galho
Na boca uma serpente
ele não fica parado

Cuidado com ele!

Solta um cheiro danado
Nem com banho é tirado
O perfume do coitado.

Paulo Francisco


Paulo Francisco

A perereca




















A perereca
Pula-pula toda feliz
Grudada ninguém diz
Que é de verdade aquela sapeca
Que agora tira uma soneca
Ao lado de outra perereca

 Paulo Francisco





















Nossa! Que bicho é esse?

Tem a forma de um suíno
O pé de um rinoceronte
O casco de um bovino
E a tromba de um elefante

Galopa muito bem
Tem medo de onça
E da sucuri também

Bufa quando não gosta
Guincha com a dor
Assobia quando namora
Não se prende ao amor

É vegetariana e come grama
Sabe nadar e se cobre de lama
Quando vê o homem dana a fugir
Estou falando da grande tapir

Se ainda não sabes quem é
Não vou ficar nesse viés
Ela é a nossa giganta

E sem ofensas e sem drama
Tem quem lhe chame de anta.

Paulo Francisco

Piolho























Que coceira danada
Na cabeça das crianças
É piolho da pesada
Não teremos folgança
Acabar com essa praga
É a nossa esperança
Na cabeça mais nada
A não ser lembranças



 Paulo Francisco

A pulga


Salta como poucos
Difícil de pegar
Sempre nos deixa loucos
de tanto nos coçar
Coça cão, coça gato
coça homem, coça rato
A picada desse bicho
não é nada agradável
Nosso corpo é seu nicho
Cuidado temos que ter
Higiene é necessário
Para a pulga desaparecer.








 Paulo Francisco

A borboleta maluquinha





A borboletinha bate as asas amarelinhas
De lá pra cá se agita maluquinha.
Tadinha! Da borboletinha!
Com medo da andorinha
Parece está zuretinha

Paulo Francisco




Paulo Francisco

Alucinação
























Os olhos ardem - é fogo pra se ver
que se apagará em lágrimas
que escorrem na parede, no rosto frio
tingido pelo sangue - sangue pisado, coagulado,
chupado por um príncipe - um príncipe-vampiro

Noite nua, sem lua e sem estrelas

E a capa negra e vermelha cobre lhe o corpo
E no ar, cinzas que se espalham
nuvens que dançam frenéticas escondendo a lua
que morre de medo do moço - do moço-vampiro

Empírico?

Nem pensar - Era só um filme´no vídeo.


Paulo Francisco

Natura

floresta-mata-atlantica


Gosto do vento agitado que vai e vem de repente.
anarquizando como criança o que vê à sua frente.
Gosto do passeio tranquilo e sem nenhum compromisso
de caminhos limitados por flores de cores vivas
Caminhos de chão batido e muitos voos de passarinhos.
Gosto das minhas manhãs amainadas pelo verde da mata
do vento agitando as copas das árvores agigantadas
E balançando sem piedade as plantas rasteiras,
ipês amarelos, samambaias e avencas
A embaúba se enverga toda  levando junto  as bromélias
Outras inquilinas se agitam no tronco do jequitibá vermelho.
Gosto do farfalhar discreto que chega aos meus ouvidos
como se fosse contar-me um grande segredo.

Paulo Francisco

Play


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Nunca joguei nada
 - nem com os pés e nem com as mãos.
Era uma piada
 - só arrumava contusões
Era uma bagunça a pelada na rua ou no campinho
-Era o último a ser escolhido
–  Ah! Eles tinham razão
Não driblava
Não marcava
Era estaca presa ao chão
Mas sempre estava nos jogos coletivos
Não havia distinção.
Éramos todos amigos.
Quase irmãos.
[ Mas o que eu gostava de verdade era  outro momento.]
Ninguém nunca me alcançava
 – correr era comigo
Gostava de estar sempre na frente
 – transformando vento em ventania
Meus braços viravam asas
 – flutuava sobre o abstrato
– voava sobre os abismos.
Minhas pernas esticavam
- conseguia andar no ar
Nunca joguei absolutamente nada
                                    - mas adorava pensar que sim!




Paulo Francisco

Outro momento



Hoje, eu acordei com aquele poema antigo
que num dia nublado eu escrevi pra ti
Era um poema sobre o meu silêncio
sobre a minha tristeza
sobre o meu jeito de encará-la
e como tudo em mim era  fugaz
Lembra Maria?
Eram dores antigas – dores que iam e vinham
Ziguezagueando lento - alinhavando meu peito
deixando tudo estreito até não poder mais
Mas sempre que me encontrava assim
você aparecia e tentava me fazer sorrir
Lembra Maria?
Como gostávamos de ficar conversando
em madrugadas iluminadas por pontos azuis
Pois é! Acordei com aquele poema no peito
Acordei com vontade de vê-la
E... se não tê-la
sabê-la
Já me faria feliz.

Paulo Francisco

Palavra


Como posso escrever sobre o amor
sem mencionar o coração?
Como posso descrever a paixão existente
sem citar o desejo?
Impossível!
É com a palavra escrita que expresso com exatidão
sem vacilar os sentimentos guardados.
Está nela a mais pura declaração humana
E se às vezes me falta o ar
Também, às vezes, me falta a palavra.
Somos íntimos
Ficamos nus
Sem pudor
Posso despir-me diante dela
Sem a contemplação do rubor facial
É com a palavra gráfica que me defendo
É com a palavra glótica que acuso
Ferina como um punhal
Acalentadora como a mão materna
Palavra!
¨Mais que uma expressão linguística
É a expressão intima da alma humana.¨

Paulo Francisco

Claridade






Em dias transparentes
de paisagem limpa
de gente contente
de céu azul e telhados amarelos
de mar azul e barquinhos coloridos
não há mistério
não há tristeza
Não, não há
Não há Augusto dos Anjos
Não há poète maudit
Não, não há
Em dias transparentes
Não há Mautner
Não há Gullar
Não há Oswald
Não, não há
Em dias transparentes
há sol
há céu
há vento
Mas hás de ser diferente.


Paulo Francisco