A mosca













Frequentadoras de vários lugares
Atraídas por determinados cheiros
Só não são encontradas nos mares
Na mata são verdadeiros lixeiros

Na pescaria, a isca tem seu nome
Na pontaria, o melhor lhe acerta
No boxe, seu peso tem o homem
No cinema, a bilheteria é certa

Importante na cadeia alimentar
Adora pousar na sujeira
Em casa vive a nos perturbar

Cuidado! Não dê bobeira
Estou falando das moscas
Doméstica e varejeira

Paulo Francisco

Tamanduá








Ah! Lá vem o tamanduá
Com o focinho no chão
à procura de seu jantar

Formiga é a sua alimentação

Com sua cauda no ar
anda com lentidão

Fica feliz à beça
quando encontra
Cupim de montão.

Paulo Francisco

Gambá
















Ihhhhhhh!
Olha lá um gambá
trepado naquele galho
Na boca uma serpente
ele não fica parado

Cuidado com ele!

Solta um cheiro danado
Nem com banho é tirado
O perfume do coitado.

Paulo Francisco


Paulo Francisco

A perereca




















A perereca
Pula-pula toda feliz
Grudada ninguém diz
Que é de verdade aquela sapeca
Que agora tira uma soneca
Ao lado de outra perereca

 Paulo Francisco





















Nossa! Que bicho é esse?

Tem a forma de um suíno
O pé de um rinoceronte
O casco de um bovino
E a tromba de um elefante

Galopa muito bem
Tem medo de onça
E da sucuri também

Bufa quando não gosta
Guincha com a dor
Assobia quando namora
Não se prende ao amor

É vegetariana e come grama
Sabe nadar e se cobre de lama
Quando vê o homem dana a fugir
Estou falando da grande tapir

Se ainda não sabes quem é
Não vou ficar nesse viés
Ela é a nossa giganta

E sem ofensas e sem drama
Tem quem lhe chame de anta.

Paulo Francisco

Piolho























Que coceira danada
Na cabeça das crianças
É piolho da pesada
Não teremos folgança
Acabar com essa praga
É a nossa esperança
Na cabeça mais nada
A não ser lembranças



 Paulo Francisco

A pulga


Salta como poucos
Difícil de pegar
Sempre nos deixa loucos
de tanto nos coçar
Coça cão, coça gato
coça homem, coça rato
A picada desse bicho
não é nada agradável
Nosso corpo é seu nicho
Cuidado temos que ter
Higiene é necessário
Para a pulga desaparecer.








 Paulo Francisco

A borboleta maluquinha





A borboletinha bate as asas amarelinhas
De lá pra cá se agita maluquinha.
Tadinha! Da borboletinha!
Com medo da andorinha
Parece está zuretinha

Paulo Francisco




Paulo Francisco

Alucinação
























Os olhos ardem - é fogo pra se ver
que se apagará em lágrimas
que escorrem na parede, no rosto frio
tingido pelo sangue - sangue pisado, coagulado,
chupado por um príncipe - um príncipe-vampiro

Noite nua, sem lua e sem estrelas

E a capa negra e vermelha cobre lhe o corpo
E no ar, cinzas que se espalham
nuvens que dançam frenéticas escondendo a lua
que morre de medo do moço - do moço-vampiro

Empírico?

Nem pensar - Era só um filme´no vídeo.


Paulo Francisco

Natura

floresta-mata-atlantica


Gosto do vento agitado que vai e vem de repente.
anarquizando como criança o que vê à sua frente.
Gosto do passeio tranquilo e sem nenhum compromisso
de caminhos limitados por flores de cores vivas
Caminhos de chão batido e muitos voos de passarinhos.
Gosto das minhas manhãs amainadas pelo verde da mata
do vento agitando as copas das árvores agigantadas
E balançando sem piedade as plantas rasteiras,
ipês amarelos, samambaias e avencas
A embaúba se enverga toda  levando junto  as bromélias
Outras inquilinas se agitam no tronco do jequitibá vermelho.
Gosto do farfalhar discreto que chega aos meus ouvidos
como se fosse contar-me um grande segredo.

Paulo Francisco

Play


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Nunca joguei nada
 - nem com os pés e nem com as mãos.
Era uma piada
 - só arrumava contusões
Era uma bagunça a pelada na rua ou no campinho
-Era o último a ser escolhido
–  Ah! Eles tinham razão
Não driblava
Não marcava
Era estaca presa ao chão
Mas sempre estava nos jogos coletivos
Não havia distinção.
Éramos todos amigos.
Quase irmãos.
[ Mas o que eu gostava de verdade era  outro momento.]
Ninguém nunca me alcançava
 – correr era comigo
Gostava de estar sempre na frente
 – transformando vento em ventania
Meus braços viravam asas
 – flutuava sobre o abstrato
– voava sobre os abismos.
Minhas pernas esticavam
- conseguia andar no ar
Nunca joguei absolutamente nada
                                    - mas adorava pensar que sim!




Paulo Francisco

Outro momento



Hoje, eu acordei com aquele poema antigo
que num dia nublado eu escrevi pra ti
Era um poema sobre o meu silêncio
sobre a minha tristeza
sobre o meu jeito de encará-la
e como tudo em mim era  fugaz
Lembra Maria?
Eram dores antigas – dores que iam e vinham
Ziguezagueando lento - alinhavando meu peito
deixando tudo estreito até não poder mais
Mas sempre que me encontrava assim
você aparecia e tentava me fazer sorrir
Lembra Maria?
Como gostávamos de ficar conversando
em madrugadas iluminadas por pontos azuis
Pois é! Acordei com aquele poema no peito
Acordei com vontade de vê-la
E... se não tê-la
sabê-la
Já me faria feliz.

Paulo Francisco

Palavra


Como posso escrever sobre o amor
sem mencionar o coração?
Como posso descrever a paixão existente
sem citar o desejo?
Impossível!
É com a palavra escrita que expresso com exatidão
sem vacilar os sentimentos guardados.
Está nela a mais pura declaração humana
E se às vezes me falta o ar
Também, às vezes, me falta a palavra.
Somos íntimos
Ficamos nus
Sem pudor
Posso despir-me diante dela
Sem a contemplação do rubor facial
É com a palavra gráfica que me defendo
É com a palavra glótica que acuso
Ferina como um punhal
Acalentadora como a mão materna
Palavra!
¨Mais que uma expressão linguística
É a expressão intima da alma humana.¨

Paulo Francisco

Claridade






Em dias transparentes
de paisagem limpa
de gente contente
de céu azul e telhados amarelos
de mar azul e barquinhos coloridos
não há mistério
não há tristeza
Não, não há
Não há Augusto dos Anjos
Não há poète maudit
Não, não há
Em dias transparentes
Não há Mautner
Não há Gullar
Não há Oswald
Não, não há
Em dias transparentes
há sol
há céu
há vento
Mas hás de ser diferente.


Paulo Francisco

Momento

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Sim, Maria, eu estou triste.
Não é uma tristeza de hoje
uma tristeza repentina
que chega e pronto
Não, não é.
É uma tristeza antiga
que chega em datas importantes
em  dias comemorativos
em dias quentes/ em dias frios.
Digo-lhe que é uma tristeza necessária
Uma tristeza verdadeira e que só a mim compete.
Sim, Maria, eu estou triste.
É uma tristeza só minha, que vem e vai como nuvens
- um dia branca, noutro cinza.
E como elas: desaparece, se vai ao vento.
Ou simplesmente chora regando-me a alma
Sim, Maria, eu estou triste
- Mas passará certamente.



Paulo Francisco

Volátil





Tudo era mágico
belo
perfeito
feito à mão
As nuvens pariam sonhos
todos flutuavam
flores
gente
bichos
e até o chão.
Era tudo tão colorido
lacrimoso
perfumado
inesgotável como a ilusão.
Nem quente, nem frio
nem claro, nem escuro
Estava tudo tão centrado
tão alcançável
tão silencioso
tão perto de Deus
que só poderia ser um sonho
uma viagem interplanetária
intergaláctica
incensaria
que certamente eu voltaria
a qualquer momento
menos insano
mais concreto
ao mundo dos ateus.


Paulo Francisco