Pseudosoneto












Não me culpe porque te amarei
Não lhe peço que me ame agora
Ainda não existo em sua memória
Em seu coração sempre estarei

Mesmo que ele não seja eterno
Que este amor seja sincero
Que tenha cheiro de flor do campo
Que seja tudo, que não seja santo

Não me culpe porque te amarei
E se um dia ele for embora
O amor que tanto lhe cantei

Não será sua, não será minha
A culpa do amor que definha
Pois em seu coração estarei




Paulo Francisco

Alma


A resistência heróica de um pardo confiante
Esquecido na bruma macia de uma manhã qualquer
Invade a melancolia gritante dentro de seu próprio ser
Jogado na sarjeta poética numa rima constante
Esbraveja sua dor adormecida no eco da escuridão
Vem em passos largos a procura de algo
Que não está num caldeirão reluzente
Tampouco no celeste amanhecer
Cerra a alma em ilusória cela
Distorcida por ser cambiante
Sofre calado o heróico pardo
Por um amor que não quer esquecer.


Paulo Francisco

Entre mar e céu

Para Maria


Na ausência da existência deste teu céu azul, furto-me do ar que respiro.
Sufoco-me de seu nome até não mais aguentar.
Quero ir para as margens do rio de teu coração.
Na insistência de não querer este meu mar de cores, recorro ao cruzeiro do sul.
Quem sabe assim você me segue neste destino do amor.
Não tenha medo, venha, venha sem pudor, venha na clareza do poeta.
Venha na calada da madrugada, venha no entardecer, não importa, mas venha amanhecer o meu amor.
Estou à espera de você aqui, nesta varanda de flores, nesta rede de sonhos, neste ninho de cores, nesta certeza de amar.
Deixe a incerteza de lado, basta de tessitura, sobrepujemos os pudores e bendigamos os nossos sentimentos.
Traga somente a semente do amor – amanhamos nossos corpos à lua cheia. 
Deixemos reflorescer o que já fora, um dia, mortificado.

E enquanto você não vem, meu amor, fico aqui nesta ilha da saudade, neste atol da vontade, olhando o meu céu de todas as cores, na esperança que surja nas montanhas, você.





Paulo Francisco

Passatempo





Livre - pensamento
Desejo - guardado

Tempo  no tempo
Tempo especifico
Tempo partido

Espaço-tempo
Abstrato-tempo

Tudo há seu tempo

Tempo-tempo


Nada parado
Conjugado no tempo

Parido

Meu tempo
Seu tempo

Tempo-livre
Tempo-guardado
Esquecido no tempo

E eu...
Intemporal


Paulo Francisco

Temporal III









































É chuva miúda que encharca
que apaga marcas deixadas
por queimaduras profundas
- loucuras de amor

É chuva miúda que carrega
consigo a dor de uma paixão
de ilusões adquiridas
em palavras profanas
- foi tudo amor

É chuva miúda que lava
bate na cara – desperta
- pura ilusão

É chuva miúda que não machuca
afoga as mágoas – alivia o peito
desfeito por quem partiu

É água que cai
que descama a pele grossa
saudade não permitida
parida/sofrida

É chuva miúda

É água sagrada

É chuva pedida
bem vinda
que limpa
apaga seu nome
do coração.


Paulo Francisco

Temporal II



Raios e trovões iluminavam e sonorizavam o meu medo
Meu corpo molhado pesava e dificultava o meu caminho
As árvores e os arbustos, antes perfeitos, como obras de Deus,
não passavam de esculturas sombrias naquela noite sem vida.
Não sabia se chegaria; não sabia se conseguiria vencer a água que caía.
Fora tudo de repente. Sem sinais. Sem aviso prévio.
Andava, parava, corria, escorregava e caía.
O que antes estava tão próximo as minhas mãos, ao meu corpo,
agora se encontrava distante, longe de meus olhos.
Raios e trovões iluminavam e sonorizavam o meu medo.
A chuva, insistente, lavava a minha pele, limpava a minha alma.
Aprontava-me, certamente, para o outro dia.
Um dia de sol e brisa.



Paulo Francisco

Medo





Estou preso.
Há uma barreira invisível lá fora
que não me deixa  sair
não é o frio
não é a fina chuva
não é o dia escuro
não é coisa física
tampouco divina
Simplesmente não consigo sair
Algo me impede de chegar lá fora
- sair daqui é a certeza de perder
Mas, perder o quê?
Não sei...
Há algo atemporal por aqui.


 Paulo Francisco

Manhã







A lua hoje não veio. O céu a escondeu em seu manto negro.
E a dama-da-noite, triste por não vê-la, chorou a noite inteira.
O vento – cúmplice do meu silêncio – cantarolou baixinho
uma canção de saudade. Eu a segui em passos lentos;
e as folhagens dançarinas acompanhavam a melodia
em sincronia, fazendo-me companhia.
Cheguei ao meu destino junto à aurora multicolorida.
E, aos poucos, o senhor Sol saudou-me com sua luz.
O vento, que nunca parou, trouxe consigo o cheiro de anis.
E o meu grito de alívio ecoou por todo o Vale.

Paulo Francisco

Meia-estação



Para Lis




Tudo em cima
Firme
Pontudo
Montanhas espetando as nuvens
Luz invadindo as frestas
Fios d´agua ziguezagueando a pele
Chão craquelado por folhas mortas
Tudo em cima
Perfeito
Alegre
Flores desabrochadas
Exalando perfume
Colorindo nossos olhos vertiginosos
Enfeitando nossas almas perdidas
[Ainda é primavera.]

Paulo Francisco


Suplica







Venha! Faça-me ternura, traga-me o aroma da flor.
Vista-se em sorrisos, deixe  o pecado pra depois 
-  expurgue-se de tal sentimento 
- cubra-se de pólen e venha.
Venha com o vento.
Venha a contento.
Façamos estrelas em teto de madeira.
Cavalguemos em campos de linho numa tarde leitosa
transformada em banho de espuma
e as nossas epidermes, em cobertores aquecidos.
Venha... venha sem culpa, sem atino, simplesmente venha,deixe o recato lá fora, desnude-se em atos, traga somente, por ora, vontades a serem cumpridas.
Venha  carregada por libélulas carregadas pelo ar.
Venha coberta de insensatez, mostre-me sua nudez.
Venha, simplesmente venha, e juntinhos ouviremos o vento lá fora,a proclamar ao mundo, a nossa paz. 
Não quero menos que isto.
Não quero menos que lua e estrelas no nosso céu marinho.
Não quero menos que as brumas envolvendo os nossos corpos e lavando as nossas almas.
Não me importa se fado ou tango; se Mozart ou Ravel; se branco ou preto; se Florbela ou Cecília; se Drummond ou Vinicius. 
Quero em quereres mais que Caetano quis.
Venha, meu amor! Faça-me seu.
Assopre o braseiro da existência em mim.
Transforme-me em ex-suicida.
Faça-me chorar e rir de amor. 
Olhe em meus olhos e veja minha alma. 
Cubra-me de lírios brancos - conservemos as margaridas no jardim.
Façamos juras de amor.
Venha, meu amor! Não deixes de vir.
Faça deste amor que é só meu, um amor de nós dois.




Paulo Francisco


Blackbird












E na madrugada de ontem
a ave noturna invadiu meu espaço
feriu meu peito, cantou suave
e voou
E nesta madrugada de peito aberto
fiquei à espera da ave noturna
que não cantou.

Paulo Francisco