Lágrimas
















Desfaz-se em vento
povoa pensamentos
é brisa que habita
é bruma que empurra
De olhos fechados
desconstrói a dor
De olhos fechados
pulveriza a cor
E num abraço abafado
de peito apertado
chora de amor.
É poesia construída
no coração de Catarina.
Catarina que chora
chora ...
chora desesperadamente
chora  de saudade...
chora de amor.
Paulo Francisco

Simultâneo




Ainda chove
Tudo nublado
Denso
Chumbado
Blindado
Lá fora e aqui dentro

Paulo Francisco

Noturno



O céu estava opaco, difuso, misteriosamente marinho e choroso. Ainda não havia estrelas e a lua continuava tímida.  As calçadas estavam úmidas e quase vazias. Gosto de andar na sombra da noite. Na calmaria noturna, ouço o silêncio amedrontado dos passos apressados daqueles que têm medo. Sigo sem pressa pelo caminho indicado pela seta.
Há tempos que não caminhava sem a necessidade de chegar. Caminhar por caminhar. Desgarrado dos compromissos agendados e da rotina diária de quem precisa sobreviver. 
Voltei pra casa orvalhando sonhos. 

Paulo Francisco

Pausa




O cansaço chegou arrastando, empurrando o meu corpo pra dentro do edredom
- Que bom seria desligássemos no automático e levantássemos com a bateria a 100%
- Que bom seria tivéssemos leds de aviso
Não, não estou aqui fazendo menção aos androides científicos
Estou sim, fazendo menção à falta de tempo para desligarmos totalmente
Hoje, acordei já cansado, com vontade de permanecer colado ao colchão
permanecer sonhando – sonhando secretamente em baixo da coberta
Acordei exausto, com o corpo pedindo bis
Acordei com a bateria ainda baixa; ainda por terminar de carregar
Acordei em pane; zonzo - zonzinho
Acordei com vontade de ficar
 Mas o dia já tinha ido embora
A noite chegara fria
sem lua nem estrelas
Mas estava na hora de acordar.

Paulo Francisco

Insone




Em algum lugar lá fora os cães uivam sem parar. Madrugada nublada e fria em pleno novembro. A chuva cai em véu.  Outros sons surgem formando uma orquestra descompassada e aflita. São a natureza viva e o homem se mesclando num céu sem lua.
Estou sozinho. Estou quase sempre sozinho. Nessa minha solidão provocada não tem espaço para a tristeza. Estou sozinho, mas não estou triste. Sei quando ela chega e sei quando ela vai embora.
Os outros animais surgem contemplando o céu de nuvens carregadas de incertezas. Os homens acordam com suas máquinas velozes e insensíveis. Os cães se acalmam com a claridade do dia. Tudo muda. A noite se foi e o dia chegou denso e gelado numa primavera vestida de inverno. Mas há flores e cores no caminho daqueles que sonham.
Em algum lugar lá fora os cães ladram, a chuva cai e o homem corre ao encontro de seu destino.
Estou sozinho. Estou quase sempre sozinho. Mas sei que há vida lá fora. Como também sei que há vida aqui dentro.
Estou sozinho, mas não estou só.

Paulo Francisco

Presente





Traz para mim um sorriso. Não precisa ser uma gargalhada – um leve sorriso nos olhos é  suficiente para a desejada leveza na alma. Sim, não preciso de muito.  Contento-me com um céu azul, uma montanha enfeitada de pássaros, uma rede de casal e afagos na nuca.
Traz para mim cores misturadas e reinventadas -  para colorirmos juntos um novo caminho.
Traga, também, a fita dourada, que o laço, construiremos juntos a quatro mãos.
Agora, caso não tenhas tempo de compartilhar o sorriso, a paisagem, as cores e a fita, continue onde estás.
Às vezes, o sonho alimenta mais que a realidade.

Paulo Francisco