Varal de cores

Pendurei, em meu varal, as cores existentes.
O sol e o vento deram-nas o brilho e a leveza,
respectivamente.
Foram mais de cem as cores escorridas.
Algumas, eu sei, repetidas insistentemente.
Mas, ai meu Deus, se não fosse assim...
O que seriam de minhas dores?
O que seriam de meus amores?
Das paixões enlouquecidas?
Das tardes entristecidas?
Da sede e da fome de todos os dias?
O que seria de Sicrana?
O que seria de Fulana?
O que aconteceria com Beltrana!?
E o que seria de mim, se não houvesse
as cores a pendurar;
se tudo fosse monocromático,
monótono, sem o tingido repentino?
Pendurei em meu varal, as cores esticadas
caprichosamente.
Criei um labirinto de cores
Mosaicos sortidos - uns divertidos
outros nem tanto.
E a cada cor, uma surpresa pendurada,
balançando ao vento, refletindo a lua
 em madrugadas de estrelas.
Sim, pendurei-me neste varal e deixe-me levar
pelo senhor vento, doei minha pele ao rei sol,
declarei-me a dama lua,
brinquei com as pequeninas estrelas azuis.
Fui para um lado/Fui para o outro
chorei, sorri, gritei e silenciei-me
em versos.
Fui cúmplice de manhãs densas
Fui duo...
demônio e anjo
mocinho e bandido
rei e rainha
velho e criança
mago e bruxo
arcaico e moderninho.
Sim, fui humano. E como qualquer humano
fui sonhador e obtuso.
Aumentei o volume de rios e de mares
Tingi-os com minhas cores fortes
Deixei-os mais coloridos e mais próximos
de minhas montanhas verdes e marrons.
Peguei algumas cores mágicas e recriei
casas toscas,
palácios mortos,
e bangalôs tristes.
Foi assim que transformei as loucuras de alguns,
os medos de outros e as incertezas de todos,
num imenso arco-íris de setenta mil cores.
Transformei a Senhora de preto
na mulher mais colorida do mundo.
Salpiquei continhas coloridas
na grinalda branca da noiva triste.
Emprestei minhas cores, em quarto de hotéis suspeitos,
às Damas esquecidas.
Mas, como nem todo o dia é dia santo,
 também caí em trevas e em pântanos medonhos.
Cobri-me com a capa vermelha do vampiro
e vaguei em madrugadas escuras,
de lua pequena, à procura de almas perdidas.
Sofri pela ausência de cores e amores.
Sofri pelas dores instaladas.
Às vezes minhas, vezes outras alheias.
Neste meu varal, fui plantador de flores em jardins suspensos.
Reguei-as em tempo seco e colhi - as no tempo preciso.
Pendurei-as por fios invisíveis, preguei-as por pregadores vivos.
Neste meu mundo de cores, vigiei o céu cinzento à procura de chuva.
Protegi, com o meu corpo, as cores mais sensíveis.
Libertei aquelas que mimetizavam asas de borboletas.
As mais coloridas joguei aleatoriamente no ar
transformando-as em flocos reluzentes em noites escuras.
Neste meu varal construído, há a diversidade da vida;
há a dualidade amorosa; há cores e amores permitidos.
Hoje, recolho as cores do varal, dobro-as e separo-as por tons.
Arrumo-as com carinho e guardo-as em poesias.
Poesias azuis.
Poesias verdes.
Poesias amarelas.
Poesias brancas.
Poesias de todas as cores
- ton sur ton
- furta-cor
Matizes delicados na ponta do pincel.
Espectros abstratos hipnotizando a vida.
Hoje, exatamente agora, vejo o varal  
sem enfeites
sem almas
Hoje, exatamente neste instante poético
há a transparência da água-viva enganando os olhos
o agito de um mar revolto balançando os barcos,
o som de um vento ligeiro assustando o mundo,
e a mudez infinita de quem um dia amou...
As cores transcorrem entre os dedos
escapam da alma em fluídos  transparentes
viscosos
navegando em organoides assimétricos e errantes.
E que mais adiante se encontram, se tocam e confabulam.
E nesse exato momento confuso, as cores se misturam
escurecendo tudo.


Paulo Francisco

frialdade

O dia ainda não acordou.
Permanece coberto
por um denso véu cinza.
O céu chora miúdo
chora manso
chora triste
Lágrimas que molham
 telhados
 árvores
 carros
 ruas
e capim.
O dia permanece fechado
 -triste
- castigado
por um vento que corta
por um vento que assombra
uivando feito alma penada
em minha porta.
O dia acordou desconfiado
e me deixou trancafiado
de castigo  em meu quarto.
[mas eu não ligo não]

Não há lugar melhor pra fugir deste frio
e  do fantasma  que grita lá fora.

Paulo Francisco

Ponto de vista














Estava tudo tão pálido
distorcido
amorfo
sem vida
Estava tudo tão triste
degradado
apodrecido
cinza
Estava tudo tão longe
longe dos olhos
longe do mundo
longe de tudo
Estava tudo tão transformado
pantanoso
desértico
oceânico
alagadiço
Estava tudo tão confusamente
amarfanhado
desnorteado
torto
roto
morto
difuso
Estava tudo tão próximo
e ao mesmo tempo tão longe
que acreditei piamente ser real
o fogo que me queimava a alma.
Acreditei que estava morto
nessa vida de sonho.

Paulo Francisco

certeza




Xô! dor
Xô! dor
Vá embora daqui
Desintegre-se em pequenas partículas
tão invisível como um átomo
Ah, quem dera eu pudesse
transformá-la num quark.
Tirá-la desse substantivo
e juntá-la  com outras palavras
uni-la como sufixo nesse ar existente
transformando - a em outro substantivo
mais fácil de se tratar.
Pois não há, nessa vida, ardor
que não se possa curar.

Paulo Francisco

Tão distante







Lá longe, muito longe, bem longe
ouve-se o cantar dos vivos
cântico versado naturalmente
cântico harmonioso certamente

Lá longe, muito longe, bem longe
há pássaros e outros bichos
um vento sereno e um calmo rio

Lá longe, muito longe, bem longe
as folhas dançam nos galhos verdes
em que se escondem outras espécies.


Lá longe


                 muito longe

                                     bem longe




                                                           há vida



                                                                                 há luz.



Há a verde esperança
de asas grandes,
em forma de leque,
espanando devagarinho,
toda a tristeza que há por aqui.



Paulo Francisco

névoa








De repente
             nada se vê
                         numa tarde
                                      pardacenta
                                                    Teresopolitana

De repente
           a fumaça engolfa
                               a tarde fria
                                             escondendo o verde
                                                                    vestindo as montanhas
                                                                                           cortinando de fumaça
                                                                                                a cidade serrana

De repente
             o ruço vai embora
                                   deixando na paisagem
                                                                lágrimas de saudade.



Paulo
     Francisco

encontro




Teus olhos negros
invadem
e
acanham
os castanhos meus.


Paulo Francisco


Dois Olhos Negros by Lenine on Grooveshark

manhã sem manha

Manhã
 sem beijos estalados
sem abraços apertados
sem pedidos inesperados
sem a certeza do dia.

Manhã
abandonada
invernada
acinzentada
sem melodia.

Manhã
sem manha
sem assanha
Estranha! vazio nas entranhas
sem cor.

Manhã
sem beijinhos molhados
com gosto de hortelã
sem abraços apertados
grudadinhos como os de uma rã.

Manhã
chata
sem graça
apagada
ressacada
perdida na dor.

Que chato acordar sozinho
sem um carinho
de um amor apressadinho
- Temos que trabalhar!


Paulo Francisco





DOIS by Evandro Marinho on Grooveshark

queixume



Deixei a janela com uma pequena fresta
- é para sentir  o ventinho gelado invadindo.
Enquanto chove e faz frio lá fora
aqui, trancado neste espaço cinza,
 aqueço minha pele e os meus olhos
 com o amarelo e o vermelho do fogo.
Lá fora o céu chora e molha um jardim sem flores.
Aqui dentro, o choro é outro.



Paulo Francisco


Queixume (Original) by Tom And Joyce on Grooveshark

do corcovado ao dedo de Deus




Hoje tem música boa
tem Bossa
não tão Nova
mas que ainda roça
na garganta da gente.
Hoje tem música boa
na feira
na praça
do Alto
no fim da tarde
depois de um céu azul.
Hoje tem arte
que arde
na alma da gente.
Hoje tem música boa
tem Menescal e Wanda Sá.

Paulo Francisco
Bossa Entre Amigos by Wanda de Sa, Roberto Menescal e Marcos Valle on Grooveshark

sensata lua

Sensata 57/Irene Freitas


De sua janela
a moça fotografa
a lua
- pedaço dela.
A moça registra
a lua 
alaranjada
crescente
sensata
num
 céu negro
na cor.

Paulo Francisco

Varrendo a lua by Roberta Campos on Grooveshark




De repente
nada se vê
numa tarde
pardacenta
Teresopolitana
 De repente
a fumaça engolfa
a tarde fria
escondendo o verde
 vestindo as montanhas
cortinando de fumaça
a cidade serrana
De repente
o ruço vai embora
deixando na paisagem

lágrimas de saudade.

companhia




Não existem palavras
- não há som
Tudo mudo/surdo
absurdamente compactado
 em meu peito de trapo
definitivamente trancado
 em meu escuro quarto.
Não há palavras
- não existe som
Tudo apagado/amarrado
amarfanhado/amarelado
desalentado/quebrado
Não há nada além de meu quarto escuro
absurdo!
- estou só
sozinho
esquecido
banido
Não há nada
nada
nada além de uma paisagem
 estupidamente turva
Estou enfraquecido
perdido...
Há somente ela
- uma  triste dor
coabitada
atada em mim.

Paulo Francisco


fragilidade



Fora numa noite estrelada
de lua grávida 
e brisa em minha cara
que me descobri fantasma.
E depois de muitas noites
fantasmagóricas
em lençóis de linho branco
em absoluto silêncio
morrendo de medo
me descobri humano.


 Paulo Francisco



Credo by Milton Nascimento on Grooveshark

hibernação





Aqui o dia acordou preguiçoso, nublado, frio e molhado. Hoje, não há trilhas, não há passeios no Parque, não há roupas no varal.

Acordei imitando o dia. Amanheci tão preguiçoso quanto. Dei preferência a ler deitado na cama. 


Enquanto lá fora uma chuvinha era embalada pelo vento, eu, em meu quarto, viajava em crônicas de Rubem Braga – um dos maiores cronistas do século vinte e de minha juventude. Gosto de ler ou reler meus autores preferidos. Como também gosto em dias nostálgicos, como os de hoje, sorver bem devagarzinho, assoprando, miudinho, a borda da minha caneca vermelha, na esperança de não ser queimado pelo chocolate negro e esfumaçado. Em dias frios o cacau me ganha. Rendo-me à cobiça e  à gula. Torno-me um devorador de guloseimas, e, sem o menor pudor, rolo no chão com uma formiga, por uma migalha de chocolate que por ventura caia de minhas mãos. Fantasio-me de velho inglês e escondo os meus chocolates debaixo do travesseiro, e, se eu o bebesse, esconderia na gaveta da cômoda uma bela garrafa de conhaque, com certeza.


Sim, o frio derrete a minha capa de samaritano e desvenda o meu lado sovina que sempre permanece em estivação por três estações. O frio devolve-me a capa de avaro e saio voando por aí, com a mochila cheia de bombons escondidos. O meu poder está no açúcar; a minha força está no chocolate.


Foi este dia mais curto que me encolheu e me deixou mais egoísta com a minha caneca de chocolate quente.


Continuei a ler Rubem Braga e a voltar no tempo, sem me importar com o que estava acontecendo a minha volta. Um tempo que as minhas únicas preocupações eram não tirar notas vermelhas e não dizer palavrões perto de meus pais, esta última quase impossível de cumpri-la, e, quase sempre diminuía a grana do cinema aos domingos, onde meu colo ficava mais leve de balas e de chocolates.



Voltei à realidade com o telefone tocando estridentemente:


- Como está o tempo aí na serra?


- Friiiiioooo!


- Aqui chove.


- Aqui também, uma chuvinha de se esconder debaixo das cobertas.


- Tem vinho?


- Tenho. Sempre tenho.

(risos)

- Acordei com saudade desse frio serrano.


- Então venha.


- Posso?

(riso)

- Claro! Pode sempre.


Voltei à minha leitura e ao meu líquido precioso e energético. E naturalmente viajei no tempo mais uma vez. Viajei, em lembranças, quando em dias nublados não nos impedíamos de cumprir com o combinado. Não havia tempo ruim. E se não podíamos sair por um motivo ou outro, tínhamos a música no rádio, os jogos de tabuleiro e os livros.


Sabia que não podia ficar na inércia tão desejada por todo o dia. Mas, adiei o máximo o levantar-me e sair de minha preguiça quase judia.


Olhei para fora da janela e vi uma esperançosa nesga azul rasgando aquele cinza celestial. Resolvi, então, antes de minha visita chegar, comprar o que faltava nesta casa de um dono só.


Queijos, pastas, pães e mais vinhos. Depois das compras feitas, restou-me um tempo para um curto passeio pelas ruas da cidade num sábado vestido de roupas de lã.


Agora, enquanto espero a tarde acabar e a noite chegar com a lua escondida entre nuvens, escrevo este texto e percebo que nada mudara em mim, em dias preguiçosos. Continuo cumprindo com o combinado e não tem tempo ruim que me impeça de realizá-lo, mas, caso por um motivo o outro não o faça, tenho sempre música boa, vinhos e uma coberta quentinha pra espantar o frio.


Acordei como o dia de hoje: um amanhecer preguiçoso e choroso, transformado em uma leve tarde prata, rajada de um esperançoso azulzinho claro, prometendo uma noite marinha estrelada e com a lua prateada pela metade.


Nossa! Esqueci-me de guardar no fundo da gaveta a caixa de chocolate belga comprada esta tarde.






Paulo Francisco





Chocolate by Jorge Ben Jor e Tim Maia on Grooveshark



tradução


Transborda em palavras
soltas
em versos
soltos
em textos
livres
o que em mim represa

Segue em trajetórias
indefinidas
em percursos
mistos
em caminhos escuros
o que de mim escorre.

Risco nas pontas dos dedos
o tracejado a ser seguido.
[mesmo que eu não o siga]

Urbes iluminadas - Florestas encantadas
Campos verdes - Montanhas acinzentadas
Céus azulados - Oceanos esverdeados

- Transito pelas cores emergidas
do obscuro labirinto de cada sítio citado.

- Trafego à procura da realidade
 em noites frias e desnudas de fantasmas.

[eu sou o próprio fantasma!]

Calo-me diante do Tempo
- o meu silêncio é alado -
Voo em pensamentos lentos
em suaves batidas de asas
para não espantar o vazio.

[ainda preciso voar - quero vento]

Exilo-me temporariamente
num templo abstrato e frio.

Oculto-me em palavras
soltas
em versos
brancos
em frases
feitas.

- Quem tu serás?

Pergunto-me todas as manhãs
quando acordo - quando acordo.

[e quem serei eu de verdade...]

 - Quem tu foste?

Interrogo-me todas as noites
ao deitar-me – quando deito-me.

[Nasço e morro a cada dia vivido?!]

Não há sombras macias na ausência do sol
- somente aquelas que assombram em noite de lua.

Meus mares inventados - meus dias sofridos

Minhas noites arrastadas - minhas tardes esquecidas.

Introspecção simplesmente?! Intrinsecamente perdido?!
Extrinsecamente à vontade?! Ou puramente loucura?

Sou louco ao navegar em brumas assopradas pelo vento?
Sou mitológico com minhas metades absurdas?

Ah, quem dera eu fosse um louco mitológico!
Um argonauta invasor de corações.
Um pássaro azul a cantar à sua amada.

[mas não sou]

Minhas palavras jorram a esmo
tingindo o céu além do azul
flutuam como pequenas balsas
colorindo águas salgadas e alheias.

Minhas palavras revelam-se
em dores
em cores
em amores
em imensidão.

Construo as minhas próprias telas
- sou aprendiz de aracnídeo
que constrói e se alimenta
de suas próprias teias.

Durmo no visgo das palavras
grudo-me a elas e crio-me
uma segunda pele.
Pele esta que me protege
da acidez que sai do aguilhão
implantado no meu corpo
frágil de escorpião.

Transmuto-me em outros
em outros seres
em outras coisas
                - abstratas, surreais ou concretas.
                                  [tanto faz]

Grito!

          grito ao vento                            
                       grito ao mar

                                                Grito!

espano
              espalho
                            palavras

Desfaço-me e navego
cego
livre
brumoso
ao léu.

Sou o bem?
Sou o mal?

- sou, sou sim, sou ambos!

metade bicho/ metade homem
metade sol/ metade lua

E com as minhas metades
torno-me inteiro.

- E inteiro permaneço completo?

Ah, o ciclo nunca se fecha ainda vivo

Vivo e refaço-me a cada instante

e neste instante as nuvens passam,
o vento passa, a noite acaba,
e a claridade chega através do dia.

Há sol
         há cores
                     há vidas

E neste instante termino o texto.
- Tenho que dormir.


Paulo Francisco

reflexo




E a noite se escondera atrás de um véu negro
para que ninguém pudesse vê-la chorar
mas suas lágrimas acre-doces desceram mansinhas
orvalhando o meu caminho e camuflando as minhas


Paulo Francisco








O silêncio by Amelinha - www.musicasparabaixar.org on Grooveshark

olhar

O ar estava leve e trazia consigo um breve cheiro de flores do campo.  O sol chegava manso aquecendo os ossos congelados pela madrugada fria da noite passada. Gosto de lagartear logo pela manhã; de ficar por alguns minutinhos sentado no degrau da escada, ao sol, sem fazer nada, absolutamente nada, a não ser banhando-me com o dourado do dia.

 Ainda não chegou o inverno e já estou pensando na primavera.

Sou notívago. Gosto de lua e estrelas. Gosto do silêncio absurdo da madrugada. Mas com o frio chegando antes da hora, ando meio preguiçoso e dormindo mais cedo. Talvez seja pela taça de vinho ou do chocolate quente. Não sei.

 - Paulo, você quer um chá quentinho? Estou fazendo um pra mim.

- Prefiro um chocolate quente, pode ser?

- Vou fazer.

Aprendi a tomar chá com a minha mãe. Meu Pai nunca colocou um chá na boca. Preferia vinho e cerveja. Dizia.

Acabei herdando deles as suas preferências. Fazer o quê!?

Dizem que o menino possui mais características da mãe e a menina do pai. Possivelmente acabei herdando muito dos dois.
Por outro lado, tenho as minhas próprias. Gosto de cachorro, minha mãe de gatos. Sou Tricolor contrariando toda família vascaína.  Fazer o quê!?

Gosto é gosto. Meu filho gosta do vermelho e detesta o amarelo. Eu já sou o azul.

Quando criança tinha pavor de entrar na igreja e vê as imagens cobertas por um manto roxo. Já tinha certa cisma com o silêncio do lugar e o eco produzido pelos nossos passos em dias fora de missa - era aterrorizante.

Acho que me tornei claustrofóbico por causa do manto. Verdadeiramente, não sou fã da cor roxa. O lilás ainda vai.

- Qual?

Na hora de dizer-lhe a minha preferência, eu ia sempre para o lado azul, do verde, do preto ou do branco. Descartava sempre o rosa, o lilás ou qualquer cor, exceto o azul, que me lembrasse o roxo.

- Ah, está blusa tal fica linda em você. Realça mais a sua pele.

Acabava convencendo-a a ficar com a cor de minha preferência.

Mas quando chegou a moda do roxo. Eu quase enfartei. Não tinha que opinar - era a cor da moda. Verdadeiras bagas em cachos.

Por falar em moda, está acontecendo uma coisa engraçada nas ruas. A bicharada está solta. Estou me referindo a esta moda das mulheres se vestirem com algo que nos leva a lembrar de um bicho qualquer. 

Certa tarde, estava no bar do João, sentado próximo da porta, tranquilo em minha leitura, quando me distraí com os transeuntes. Fechei o meu Manuel Bandeira e fiquei observando as pessoas passando. Gosto disso: de observar as pessoas que passam pela calçada. 

Passou uma oncinha, outra oncinha, uma jaguatirica, uma jiboia cinza, uma jiboia dourada, uma zebra, uma oncinha e uma cobra qualquer. Acho que vi uma gatinha conversando de mãos dadas com outra gatinha. 

Comecei a observar que quase todas tinham uma referencia animal. Seja na blusa, na calça, na pulseira, na sandália, no cinto ou na bolsa. Mas o que me chamou mais atenção e me tirou uma gargalhada da alma foi quando passou na minha frente uma moça com um casaco branco e preto. E eu juro que era de uma vaquinha malhada. Era sim. Ela estava de vaquinha malhada.

Realmente os bichos estão em alta. Seja para o abate ou não.

A certeza foi quando entrei numa loja recém-inaugurada na cidade e lá estavam todos os bichos do mercado. Tinham estampas de onça, zebra ou vaquinha, no balde, na vassoura, na pá, no caderno, na agenda, em potes, em roupas íntimas e muito mais.

Ao voltar pra casa, no finalzinho da tarde, passei por uma casa e vi uma senhora tomando banho de sol em seu gramado. Ela fazia naquela hora o que eu faço de manhã. Mas com uma pequena diferença: o meu lagartear está na ação. De certo não carrego comigo uma toalha de zebra e muito menos uma bolsa de oncinha.

O meu pijama não tem listras.

Paulo Francisco

exceção




Era uma tarde de sombras. O vento, lá fora, acariciava as folhas que ainda insistiam em ficar. Era uma tarde de outono com músicas e vinhos. Era uma tarde de esperança. Era uma tarde de céu manchado, anunciado o seu fim, de despedir-me do dia saudando a primeira estrela. Era noite fria e azulada. Era uma noite de lua cortada, vestida de miçangas azuis. Seria um dia comum se não fossem as taças de vinho. Seria um dia simples se não fossem os brindes trocados do começo ao fim


Paulo Francisco



Tu Sais Je Vais T'aimer (Eu Sei Que Vou Te Amar) by Nana Caymmi & Marcio Faraco on Grooveshark

enquanto...



Enquanto a lua se vestia
o céu se enfeitava de estrelas
E as estrelas cobriam o meu corpo
enquanto você se escondia.
Era fria a madrugada
Era solitária a madrugada
Era minha a madrugada
Enquanto tu dormias lá fora
eu sorvia o mais quente
dos líquidos aqui dentro
Enquanto a noite revelava-se
em mistérios
as estrelas trocavam confidências
em código Morse
Enquanto o vento gritava à procura da lua
a dama da noite exalava seu cheiro
Enquanto o cão dormia com seu dono
na marquise fria
o céu se desfazia em gotas orvalhadas
molhando a alma de quem sonhava
Enquanto tudo é realidade
na poesia
você,
com sua mente pequena
com seu corpo cansado
com sua vida miúda
acredita inutilmente na impunidade
de teus pecados
Enquanto meu corpo adormece
o sol aquece as paredes de meu quarto
E quando eu me desperto de tudo
a lua se desnuda mais uma vez.


Paulo Francisco



Enquanto isso by Marisa Monte on Grooveshark

claridade




Não havia temperança.
Era braseiro brotado nos poros da alma.
Era desejo escapado pelas entranhas.
Era cheiro misturado numa nova fragrância.
Era dor de gozo parido. Era beijo partido.
Não havia choro nem promessas.
Era o instante vivido.
Era alma descoberta.
Não havia sombras.
Era a cor da certeza manchada na boca.
Era o que se tinha.
Era o que se podia em tarde fugidia.
Não havia esperança.
Não havia temperança.
Somente a cor do dia.

Paulo Francisco


Tango flamenco by Paco de Lucía on Grooveshark

renovo




E depois de tudo
tudo azul
Foram-se as folhas
mortas e marrons.
E depois de tudo
clareza
beleza
em ver de novo
o verde
em meu jardim.

Paulo Francisco




Alias by Belchior on Grooveshark

gris






A saudade chega alagando a alma. A música chora em noite sem lua. Abri uma garrafa de vinho e deitei-me na ponta do laço. Permaneci tingindo de bordô o meu corpo frio. Aqueci-me de sonhos e de você.
Estou com saudade de ti.
É sempre assim em dia nublado. Nublo-me também.
A saudade parte deixando resquício em meus lábio tingidos de vinho.

Paulo Francisco


Saudade by Maria Bethânia on Grooveshark

luz





A lua branca forma o olho do lobo
o lobo se transforma em homem
o homem se dissipa em cinzas
Nua, redonda e leitosa
a lua brilha sobre a minha cabeça
num céu frio de poucas estrelas
Além de meus olhos a lua ilumina
o caminho escuro por mim construído.


Paulo Francisco





Lua Cheia by Toquinho on Grooveshark

caminhante




As manhãs de sábados sempre foram as minhas manhãs preferidas. Gostava de acordar preguiçoso sem o compromisso do dia. Gostava de acordar e saber que ainda havia em meu despertar a esperança do domingo.  Gostava tanto das manhãs de sábado como as madrugadas das sextas-feiras. Elas se completavam formando o oitavo dia – sim, as minhas semanas eram de oito dias.

Ainda gosto do sábado, mas não mais pelos motivos fúteis da juventude. Talvez, eu  goste pela nobreza do dia e do dourado que coroa as nossas cabeças. Gosto mesmo é de sábado raiado azulando o dia. Mas se chegar molhado, me guardo nas cobertas e leio poesias.

Hoje acordei com um sábado dourando telhados e esquentando calçadas. Hoje acordei preguiçoso querendo ficar. Queria deixá-lo lá fora para os pássaros e as folhas caídas. Mas o danado invadiu o meu quarto clareando tudo, tirando-me da cama e me obrigando a saboreá-lo como se deve.

De banho tomado, mochila devidamente organizada, segui sem destino. Gosto de caminhar por aí sem o compromisso de chegar. Sigo em frente sem destino certo, os meus olhos clareiam os caminhos que os meus pés desejam seguir.

Talvez essa minha mania de andar por aí sem o mapa do tesouro, seja uma maneira de voltar ao tempo de moleque aluado que se perdia em pensamentos tolos e perguntas vazias.

Faço o meu caminho sem pedras. Ando lento sem medo de perder a corrida.  Observo as copas das árvores em busca de pássaros e micos. Sigo os veios das cascas das árvores à procura de seres escondidos. Aguço os meus ouvidos para distinguir os sons que o vento carrega.  

Têm sábados que me premiam com a gentileza de uma natureza colorida.

Têm sábados que me afagam com o sopro do vento carregado de cheiros de flores.

Testemunhei a beleza de um céu azul através do espelho d’água.

Gosto dessas transformações, desse respirar invisível, dessa teia alimentar, desse ciclo biológico, desse ciclo de vida.

As manhãs de sábados sempre me foram as preferidas. E nesta manhã passei de observador a observado. Estava sendo vigiado por seres escondidos. Percebia que entre as folhagens e nas copas das árvores existiam olhinhos diversos me acompanhando por toda trilha.

Eu estava visível aos olhos camuflados da natureza.

Hoje, fui presenteado com a claridade de um sábado de outono que há muito não existia.

Pois, quando dei por mim, eu estava sendo observado por Deus através dos olhos de seus filhos.


Paulo Francisco


Lumiar by Beto Guedes on Grooveshark