Expectante




A lua cresce a olhos vistos.
Aqui, em minha cela de luxo,
em minha solidão tecnológica,
em minha ilicitude poética,
em lembranças abstratas,
espero a lua crescer a cada noite.
Espero, embriagado de sonhos,
a noite mais marinha,
a lua mais vermelha,
para que eu possa de olhos fechados
tingir
pintar
cobrir a minha alma de esperança.

Paulo Francisco




¨Sem pecado, sem juízo¨


Quando o que eu escrevo é somente o teu nome
Quando tudo que eu faço tem você
Quando o meu ar é composto de ti
Quando adormeço, acordo, ando, sonho, tenho fome, tenho sede
de você.
Quando a razão é abstrata
Quando os sonhos são concretos
Quando você está em mim
Quando permaneço pétreo
Quando me torno flexível
Quando a água não me atinge
Quando as nuvens me rodeiam
Quando o fogo está em mim
Quando a musica é blues
Quando o filme é em branco e preto
Quando a rua não é escura
Quando o vento me carrega
Quando meus lábios selam os teus
Quando meu corpo arde
Quando minha alma levita
Quando ninguém acredita
Quando só há poesia
Quando te chamo pelo nome que só eu sei
Quando minha cor é a sua
Quando minha voz emudece
Quando grito ao mundo
Quando o meu corpo estremece
Quando não termino o texto
Quando as palavras não chegam
Quando as palavras registram
Quando viajo no contexto
Quando agouro o amanhã
Quando arrumo um pretexto
Quando a noite te chamego
Quando tudo é perfeito
Me chamam de desassisado.



Paulo Francisco

Ego
















Se eu pudesse
transformaria
você em minha.
Se eu pudesse
a transformaria
em minha flor
- flor só minha.


Paulo Francisco


Balé











As delicadas flores bailavam
no tapete de suas folhas.
Impulsionadas pelo vento
elas iam e vinham
num suave agito.
Em sua face
- ao vento-
surgia a leveza
de um sorriso menino.

Paulo Francisco

Penitência



Ah, esse amor que não vai embora, que insiste em permanecer comigo.
 Amor que se transforma em chuva miúda, molhando-me lentamente a minh‘alma
e deixando-a encharcada de sentimentos mil.

Ah, esse amor que não vai embora! Que insiste em ficar plantado em meu peito
- amor invasor
- amor posseiro
- amor torturador de minha alma ferida.

Ah, esse amor que me invadiu o peito deixando-me sem jeito
trôpego
bêbado
zonzo
perdido
neste céu de anil.

Que venha alguém, então, e tire de mim esse sentimento ingrato de sete vidas
como as de um gato pardo, largado, vagabundo - nada varonil.
Quem me dera não o tivesse esse amor doído, sofrido, bandido...
e fosse eu forte como um guerreiro oriental vestido de prata e lança
tendo o céu como esperança de um dia poder habitá-lo sem estar perdido.

E quem me dera fosse mau como um bruxo de unhas afiadas e que pudesse, sem nenhuma lágrima, arrancá-lo de dentro de mim.

Mas como não tem jeito - é defeito adquirido - vou seguindo, pelas margens, as correntezas caudalosas da vida - morrendo de medo dos redemoinhos formados no meio desse rio.
Rio de águas-vivas.
Rio translúcido e quente.
Rio que queima o corpo da gente.
Rio de amar.
Rio de morrer... de morrer de amor.
Ah, esse sentimento que não vai embora, que insiste em permanecer comigo.
 sentimento que se transforma em chuva miúda, molhando-me lentamente a minh’alma
e deixando-a encharcada de amor.

Paulo Francisco





Chuvoso
















Enquanto a chuva não passa...
fico aqui, mergulhado em pensamentos
ouvindo o som do tempo
batendo na calçada da entrada

Enquanto a chuva não passa...
deixo as notas musicais dos pingos
orquestrarem uma melodia
que possa aliviar o meu peito

Enquanto a chuva não passa...
fico aqui, escutando-a em palavras gentis

E como ela não passa...
auxiliado pelo vento, junto-me a ela
e, com ela, me lavo... largo tudo no tempo
e danço sua melodia...


Paulo Francisco

Manhãs com asas





Na sonolência de meu caminho matutino
tão urbano
tão caipira
atropelam-me todos os dias
as penelopes
as jandaias
e outros passarinhos.

Ao longe





Ouço o chiado da serra, as crianças gritando,
os carros em roncos e outros barulhos
Mesmo ouvindo ao longe que há vida
- e há vida porque estou vivo.
Mesmo tendo toda a certeza do mundo
mesmo assim, parece-me o fim do mundo
Não vejo nada no meio do dia
só ouço, lá no fundo, o barulhinho da chuva.


Paulo Francisco

Déjà Vu























Casinhas de madeira com telhados de plástico listrado
azul e branco
verde e branco
vermelho e branco
ou todo de uma única cor:
 amarelo
vermelho
ou
verde
Não importa!
Todas eram casinhas de madeira com telhados de plástico
misturas de cores
 mistura de sabores
frases feitas imperfeitas
 sorrisos abertos banguelados
Cheiros entranhados
[Cheiros de minha infância]

Estava na feira livre enquanto Maria dormia
atravessei livre a feira
 livre em sabores
 livre em cores
 livre em odores

- tem pimentas diversas.
e junto delas:
 gengibres, cominho, colorau
cravo da Índia
louro
 canela em pau
 e outros temperos

E na banca ao lado os mais verdes deles
cebolinhas
 salsas
 coentros
E nesta fusão aromática, logo em frente,frutos do mar
peixes a vontade -  da sardinha ao salmão

E o moleque com seu caixote no meio da pista, danava a gritar:

Aqui tem limão!

Mais adiante barraca de trecos:
 ralador
 abridor de lata
coador
 panelas e tigelas

 - bugigangas necessárias,pra socorrer donas de casas
 apavoradas com o almoço ao meio dia.

- Moça bonita não paga! Mas também não leva...

- Chega aqui Madame! Tá tudo fresquinho...

- Olha as bananas nanica, d´água, prata, da terra e maçã!

frases se misturam, sotaques se misturam
gente da terra, gente de fora
brancos, amarelos e negros

Tem pastel frito na hora
 milho debulhado, cozido ou natural

E na banca da gorda sorridente, um varal de roupas coloridas
calcinhas desinibidas presas no arame desamassado bailando ao vento

E nesta viagem entre carnes mortas penduradas
vísceras expostas
iguarias macabras
 ervas espalhadas em lona improvisada
 e tecnologia pirateada
gente gorda, gente magra
carrinhos puxados, sacolas lotadas

Gente elegante, gente desleixada
 bancas de verduras, de frutas e grãos
vejo-me de mãos dadas,neste caos organizado,
com o meu passado
 de madrugadas acordado em frenéticas feiras livres

Moleque danado
 tinha a feira como castigo,
livre das brincadeiras do bairro,
acordado para o inusitado
 da feira livre de cada dia

E o português gritava:
- Moça bonita não paga...
E o garoto completava:
mas também não leva!
[e todos sorriam]

Passeei na feira livre enquanto Maria dormia.
[Voltei ao passado de um moleque arteiro de um pai ainda vivo.]

Paulo Francisco

Varal



















Ela balança,dança,
entrega-se e deixa-se levar
pelo vento
levanta... encanta...
Tão linda, tão firme com suas estampas.
num invento coreográfico, mágico,
a colcha de retalhos
deixa o vento anunciar
cada quadrado, cada retângulo
um momento, um movimento
uma história a encantar,




Paulo Francisco





Passatempo







Ontem eu estava triste
Hoje não
Ontem chovia fininho
Hoje não
Ontem eu fiquei no quarto
Hoje não
Ontem já passou
Hoje vai passar
E o amanhã eu ainda não sei

Paulo Francisco

Triste

Chove
- não muito
Chove intermitentemente
uma chuva fina e sem vento
Não estou com frio
Mas estou triste
Muito triste como Campos no século passado
Muito triste como Caetano em seu quarto
Chove intermitentemente
E eu, à janela, de repente esqueço-me do dia de hoje.
Porque estou me sentindo triste como Caetano e Álvaro de Campos.

Paulo Francisco

Memórias






Lanço-me na memória de minha infância
e vejo as casas toscas habitadas por pessoas simples
ruas de paralelepípedos adornados por gramíneas
bicicletas, carros e charretes trafegando juntos em harmonia.
Senhoras sentadas na calçada no fim do dia
Mergulho na memória de minha infância
e nado até ao fundo de um passado azul-cristalino
sem a preocupação em ser o melhor - E sim em ser um menino
Jogo-me contra o vento de meus pensamentos
e como uma folha perdida no ar
visito as faces de todas elas – mulheres de minha vida
Vejo minha mãe – com ar sofrido
Minhas irmãs – serelepes
Tias sempre pintadas – à espera de um namorado
As vizinhas – todas gordinhas
na visão de um moleque.
Corro contra a minha infância
e abraço todos os amigos
de peladas, piques e carniças
corridas sem vencedor
Atravesso toda a minha infância
descartando todas as dores
Pois a alegria de um menino
curava quaisquer maus-tratos
Volto de minha infância
menos duro – Mais criança

Fita


















Quero mais que poemas
quero o laço entre as palavras
ditas
escritas
Quero mais que tudo a fita
pra fazer o laço da poesia
E no nó o nome
e nas pontas as cores
- mescladas em desejos provocados -
rajadas em pensamentos aspirados pela retina
Quero mais que poemas
- quero a plenitude da vida
em cores e nomes

Paulo Francisco

Em ti

Deixa-me!
Grito pronominalmente a ti e ao mundo
Sim, é necessária a separação de tudo
não quero mais  participar de seus delírios
já tenho os meus e, certamente, são muitos
Minhas cores, minhas cores
Meu nome, meu nome
Deixe-me aqui.
nesse deixar transitivo direto de abandono
- Quero-me assim.
Quero mais que tudo ausentar-me
um ausentar de morrer
morrer pra tudo
morrer pro mundo
morrer pra ti
morrer, morrer, morrer
Minha morte, tua sorte
tua morte,minha sorte
teu norte, meu norte
ou qualquer coisa parecida que rime com sorte, morte e norte
Deixo-te aqui, circunstancialmente, dentro deste poema
Circunstancialmente dentro deste dilema
[ poderia  guardá-lo secretamente em minha gaveta. Poderia...
Poderia deixá-lo indiretamente em métricas perfeitas]
- Poderia, mas não vou!
Escrevo a partir de tua deixa, de tua esperança de cores e nomes
Escrevo a partir de tua queixa
Ah, como gostaria de deixar-me solto ao teu colo numa leveza quase infantil
Ah, como eu gostaria de ser um menino ou mesmo um velho caduco
sem  nenhuma referência do mundo, sem entender o mar,
sem saber o que é o amor... Sem entender a transformação do vento
Sem nunca ter sofrido de verdade e que as lágrimas caídas de minha face
fossem apenas lágrimas fisiologicamente salgadas e nada mais.
Mas não! Sou mais que tudo isso.
Entendo os contornos das montanhas, o crescimento da lua
e a mediocridade do mundo.
Entendo a dor da existência, a dor da paixão, a dor do amor,
a dor em viver.  A dor pela dor.
Foram muitas as dores existentes. Quase todas malditas. Quase todas de amor.
Hoje a minha dor é de não poder ter-te em noites frias.
- Dor também maldita.
Sim, dor maldita por não ter-te em mim.
Por não ter-te pura e simplesmente sem dor.
A lua continua em franco crescimento, brilhante num céu lilás
e a cada noite uma parte de sua nudez é mostrada a mim
- somente para mim ela se despe tão lenta e sedutoramente.
Lua - nua, lua-crua, lua - sua, lua - lua... lua - minha.
Ó lua que cresce e míngua em meu colo, que desaparece aos meus olhos
e fragmenta-se em meu corpo quase morto.
Mate-me!
Quando chegar a hora não me deixe definhar em um leito qualquer.
Sequestre-me!
Deixe-me em companhia da lua no cume de uma montanha qualquer.
Nas águas de meu telhado escorrem os sonhos em gotas de chuvas.
Em minha Varanda de cores há flores com gosto de alma
- lembranças de circos e fantasmas multicoloridos.
Em minha casa não há janelas.
 Há portas para que você entre e saia de corpo inteiro.
[Se entras, abraço-te
Se sais, desconstruo-te]
Em minhas paredes não há retratos, há imagens de instantes vistos.
Imagens compradas de artistas tristes.
E o silêncio é rompido pela fúria da voz de quem se perdeu.
E o silêncio fora estabelecido pela voz da cantora morta
que invade todos os cômodos de minha casa vazia de gente.
Ah, morena de sorriso branco, de lábios carnudos e úmidos,
de peitos pontudos e crescidos.
Morena que se arruma, se olhando de corpo inteiro,
no espelho de minha saudade.
Ah, morena que me ensinou a cadência do samba-amor.
Saudade, amor! saudade.
E a lucidez bate em minha porta Insiste em entrar.
Tenta interromper a minha viagem.
[grito] Intrusa!  Ainda não...
Deixe-me aqui em transe. Neste falecimento preciso.
Não há metafísica neste mundo criado
Mas há cores onduladas e fumaças retidas
Há leveza e tontura – sonhos e delírios
Há sim.
Teço palavras incensadas, palavras construídas e inventadas
a partir de minha psicodélicopatia.
Espalho em pequenas borrifadas as minhas alucinações.
Sou um alucinado amoroso.
Amo-te com todas as letras da PAIXÃO.
E sem esse apego profundo, torno-me matéria morna
- quase morta.
Um nada na multidão.
Ah, como é bom sorrir de amor, viver de amor e até mesmo sofrer por ele.
Sofro a cada instante vivido.
Sofro calado.
Sofro miúdo.
Sofro a cada gozo surgido.
Sofro de saudade a cada minuto distante.
Ah, mas como é bom o alívio da existência, da volta, do reencontro, do abraço...
Como é bom o suspiro profundo, a leveza invadindo e arrepiando o corpo.
E o meu corpo que há pouco estava morno – quase morto
ressuscita e aninha em seu colo.
Deixe-me assim: colado, grudado, invasor...
Deixe-me assim:
Amorosamente dentro de ti.
Deixa, amor!?
Deixa...

Paulo Francisco

Lenitivo




Quem dera tê-la agora.  Quem dera sabê-la nesse instante. Quem dera existisse algo que acabasse com essa queimação na alma. Que acabasse com essa dor da dúvida. Acabasse com a falta que sinto. Que acabasse com essa frase maldita e invejosa: Quem dera!

 Ah, quem dera!

Paulo Francisco

Explosão!





O céu avermelhou-se expulsando o cinza
Sangrou a tarde fria e a noite tornou-se rubra
Vestiu a alma pálida de lua e estrelas
Transitou pelas palavras e pensamentos
O céu avermelhou-se clareando os meus olhos
Cobriu-me de poesias no mês de dezembro


Paulo Francisco