Suspensão

O ar me falta. Falta-me quase tudo.
Tudo se arrasta - pés e pensamentos.
Mas o coração ainda bate
os olhos buscam as cores
o sorriso surge de quando em vez
e a pele treme em sentimentos
Quase tudo me falta – Falta-me o ar
Mas ainda há esperança
- Estou vivo.
Mesmo andando devagar.



Paulo Francisco

Íntimo

Sei quem sou? Ou revelo-me a cada instante?
Tem horas que acato. Outras, desacato!
Na submissão da ética torno-me expectador
Às vezes... Fera irada – Dragão a todo vapor.
Noutras...Bicho manso – Coração itinerante
avexado de chamego, quase um sofredor
Mas nesse momento de inércia,
de mobilidade violentada
sou o que sou: mero ser humano
em conflito, em desatino. Revés!
Deitado, paralisado – um sonhador.


Paulo Francisco 

Paisagem


Sonhar um sonho é perder outro?
Olho a paisagem de todos os dias
O mesmo verde. A mesma avenida
Os mesmos sons. Os mesmos rostos

Tudo igual – hoje mesmo que ontem
Exceto Minh ‘alma errante
que movimenta-se freneticamente
em uma viagem  de sonhos e vontades

Não há trem, comboio nenhum
Somente as asas de uma liberdade
    Sonhada
de realidade e gente e movimento

Sigo suave... demorado... desatento
resvalando em almas e paisagens
que se vão pra sempre

Numa realidade quase transparente
- quase Campista - que flui suavemente
de um poeta decadente – inconsciente
 - que cai de dentro de mim.



Paulo Francisco

Sentimento




















Quando viu-se preso - quase imóvel
Descobriu-se fraco - pálido
Uma poeira, um cisco cósmico
Infinitamente pequeno
- quase invisível no mundo dos homens.

Paulo Francisco


Tango
















Não há nada além de nuvens
- Não há nada além delas
Já não enxergo com os olhos de poeta
- muito menos com os de um menino
Não há sonho que resista a dor
- mas é dela que nasce a esperança
E neste vai e vem de sentimentos
há choro e riso
                             alívio e dor
E onde era claro e colorido
tornou-se sombrio quase sem cor
Não há nada além das brumas frias
- Não há nada além delas
Não há nada além de minha cela
gradeada de esperança e dor.

Paulo Francisco


¨Não sei¨






O que faço com esse varal?
Recolho as cores existentes?
Continuo a pendurar as cores inventadas,
ou
deixo tudo como está?
Já nem sei se tudo vale a pena
Também não sei, poeta, o tamanho de minha alma
Há muito não sei o que é ser criança
Há muito não sei onde é o meu lugar
Não consigo entender esse momento
de
conflitos constantes
de
 felicidades momentâneas
de
ambiguidades reveladas
de
 dias opacos
de
 noites sem brilho
Já não me lembro o que fui depois de ontem
Mas mesmo assim ainda olho para o céu à procura do sol
E se não o encontro, fecho os meus olhos,
na incerteza de ainda poder sonhá-lo.

Paulo Francisco