Casinhas de madeira com telhados de plástico listrado
azul e branco
verde e branco
vermelho e branco
verde e branco
vermelho e branco
ou todo de uma única cor:
amarelo
vermelho
ou
verde
amarelo
vermelho
ou
verde
Não importa!
Todas eram casinhas de madeira com telhados de plástico
misturas de cores
mistura de sabores
mistura de sabores
frases feitas imperfeitas
sorrisos abertos banguelados
sorrisos abertos banguelados
Cheiros entranhados
[Cheiros de minha infância]
[Cheiros de minha infância]
Estava na feira livre enquanto Maria dormia
atravessei livre a feira
livre em sabores
livre em cores
livre em odores
livre em sabores
livre em cores
livre em odores
- tem pimentas diversas.
e junto delas:
gengibres, cominho, colorau
e junto delas:
gengibres, cominho, colorau
cravo da Índia
louro
canela em pau
e outros temperos
louro
canela em pau
e outros temperos
E na banca ao lado os mais verdes deles
cebolinhas
salsas
coentros
salsas
coentros
E nesta fusão aromática, logo em frente,frutos do mar
peixes a vontade - da sardinha ao salmão
E o moleque com seu caixote no meio da pista, danava a gritar:
Aqui tem limão!
Mais adiante barraca de trecos:
ralador
abridor de lata
ralador
abridor de lata
coador
panelas e tigelas
- bugigangas necessárias,pra socorrer donas de casas
apavoradas com o almoço ao meio dia.
panelas e tigelas
- bugigangas necessárias,pra socorrer donas de casas
apavoradas com o almoço ao meio dia.
- Moça bonita não paga! Mas também não leva...
- Chega aqui Madame! Tá tudo fresquinho...
- Olha as bananas nanica, d´água, prata, da terra e maçã!
frases se misturam, sotaques se misturam
gente da terra, gente de fora
brancos, amarelos e negros
Tem pastel frito na hora
milho debulhado, cozido ou natural
milho debulhado, cozido ou natural
E na banca da gorda sorridente, um varal de roupas coloridas
calcinhas desinibidas presas no arame desamassado bailando ao vento
E nesta viagem entre carnes mortas penduradas
vísceras expostas
vísceras expostas
iguarias macabras
ervas espalhadas em lona improvisada
e tecnologia pirateada
ervas espalhadas em lona improvisada
e tecnologia pirateada
gente gorda, gente magra
carrinhos puxados, sacolas lotadas
carrinhos puxados, sacolas lotadas
Gente elegante, gente desleixada
bancas de verduras, de frutas e grãos
bancas de verduras, de frutas e grãos
vejo-me de mãos dadas,neste caos organizado,
com o meu passado
de madrugadas acordado em frenéticas feiras livres
com o meu passado
de madrugadas acordado em frenéticas feiras livres
Moleque danado
tinha a feira como castigo,
livre das brincadeiras do bairro,
tinha a feira como castigo,
livre das brincadeiras do bairro,
acordado para o inusitado
da feira livre de cada dia
da feira livre de cada dia
E o português gritava:
- Moça bonita não paga...
E o garoto completava:
mas também não leva!
[e todos sorriam]
Passeei na feira livre enquanto Maria dormia.
[Voltei ao passado de um moleque arteiro de um pai ainda vivo.]
Paulo Francisco

Ah, que lindo adorei esse "Déjá Vu", também me transportei ao meu tempo de menina, tinha feira na minha rua, acordava com o barulho logo de madrugada!
ResponderExcluirAmei a forma como colocastes os versos, bem rico em linguagem própria que encantou ler, ficaria lendo mais, bem mais!
Abraços meu amigo poeta querido!