olhar

O ar estava leve e trazia consigo um breve cheiro de flores do campo.  O sol chegava manso aquecendo os ossos congelados pela madrugada fria da noite passada. Gosto de lagartear logo pela manhã; de ficar por alguns minutinhos sentado no degrau da escada, ao sol, sem fazer nada, absolutamente nada, a não ser banhando-me com o dourado do dia.

 Ainda não chegou o inverno e já estou pensando na primavera.

Sou notívago. Gosto de lua e estrelas. Gosto do silêncio absurdo da madrugada. Mas com o frio chegando antes da hora, ando meio preguiçoso e dormindo mais cedo. Talvez seja pela taça de vinho ou do chocolate quente. Não sei.

 - Paulo, você quer um chá quentinho? Estou fazendo um pra mim.

- Prefiro um chocolate quente, pode ser?

- Vou fazer.

Aprendi a tomar chá com a minha mãe. Meu Pai nunca colocou um chá na boca. Preferia vinho e cerveja. Dizia.

Acabei herdando deles as suas preferências. Fazer o quê!?

Dizem que o menino possui mais características da mãe e a menina do pai. Possivelmente acabei herdando muito dos dois.
Por outro lado, tenho as minhas próprias. Gosto de cachorro, minha mãe de gatos. Sou Tricolor contrariando toda família vascaína.  Fazer o quê!?

Gosto é gosto. Meu filho gosta do vermelho e detesta o amarelo. Eu já sou o azul.

Quando criança tinha pavor de entrar na igreja e vê as imagens cobertas por um manto roxo. Já tinha certa cisma com o silêncio do lugar e o eco produzido pelos nossos passos em dias fora de missa - era aterrorizante.

Acho que me tornei claustrofóbico por causa do manto. Verdadeiramente, não sou fã da cor roxa. O lilás ainda vai.

- Qual?

Na hora de dizer-lhe a minha preferência, eu ia sempre para o lado azul, do verde, do preto ou do branco. Descartava sempre o rosa, o lilás ou qualquer cor, exceto o azul, que me lembrasse o roxo.

- Ah, está blusa tal fica linda em você. Realça mais a sua pele.

Acabava convencendo-a a ficar com a cor de minha preferência.

Mas quando chegou a moda do roxo. Eu quase enfartei. Não tinha que opinar - era a cor da moda. Verdadeiras bagas em cachos.

Por falar em moda, está acontecendo uma coisa engraçada nas ruas. A bicharada está solta. Estou me referindo a esta moda das mulheres se vestirem com algo que nos leva a lembrar de um bicho qualquer. 

Certa tarde, estava no bar do João, sentado próximo da porta, tranquilo em minha leitura, quando me distraí com os transeuntes. Fechei o meu Manuel Bandeira e fiquei observando as pessoas passando. Gosto disso: de observar as pessoas que passam pela calçada. 

Passou uma oncinha, outra oncinha, uma jaguatirica, uma jiboia cinza, uma jiboia dourada, uma zebra, uma oncinha e uma cobra qualquer. Acho que vi uma gatinha conversando de mãos dadas com outra gatinha. 

Comecei a observar que quase todas tinham uma referencia animal. Seja na blusa, na calça, na pulseira, na sandália, no cinto ou na bolsa. Mas o que me chamou mais atenção e me tirou uma gargalhada da alma foi quando passou na minha frente uma moça com um casaco branco e preto. E eu juro que era de uma vaquinha malhada. Era sim. Ela estava de vaquinha malhada.

Realmente os bichos estão em alta. Seja para o abate ou não.

A certeza foi quando entrei numa loja recém-inaugurada na cidade e lá estavam todos os bichos do mercado. Tinham estampas de onça, zebra ou vaquinha, no balde, na vassoura, na pá, no caderno, na agenda, em potes, em roupas íntimas e muito mais.

Ao voltar pra casa, no finalzinho da tarde, passei por uma casa e vi uma senhora tomando banho de sol em seu gramado. Ela fazia naquela hora o que eu faço de manhã. Mas com uma pequena diferença: o meu lagartear está na ação. De certo não carrego comigo uma toalha de zebra e muito menos uma bolsa de oncinha.

O meu pijama não tem listras.

Paulo Francisco

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