caminhante




As manhãs de sábados sempre foram as minhas manhãs preferidas. Gostava de acordar preguiçoso sem o compromisso do dia. Gostava de acordar e saber que ainda havia em meu despertar a esperança do domingo.  Gostava tanto das manhãs de sábado como as madrugadas das sextas-feiras. Elas se completavam formando o oitavo dia – sim, as minhas semanas eram de oito dias.

Ainda gosto do sábado, mas não mais pelos motivos fúteis da juventude. Talvez, eu  goste pela nobreza do dia e do dourado que coroa as nossas cabeças. Gosto mesmo é de sábado raiado azulando o dia. Mas se chegar molhado, me guardo nas cobertas e leio poesias.

Hoje acordei com um sábado dourando telhados e esquentando calçadas. Hoje acordei preguiçoso querendo ficar. Queria deixá-lo lá fora para os pássaros e as folhas caídas. Mas o danado invadiu o meu quarto clareando tudo, tirando-me da cama e me obrigando a saboreá-lo como se deve.

De banho tomado, mochila devidamente organizada, segui sem destino. Gosto de caminhar por aí sem o compromisso de chegar. Sigo em frente sem destino certo, os meus olhos clareiam os caminhos que os meus pés desejam seguir.

Talvez essa minha mania de andar por aí sem o mapa do tesouro, seja uma maneira de voltar ao tempo de moleque aluado que se perdia em pensamentos tolos e perguntas vazias.

Faço o meu caminho sem pedras. Ando lento sem medo de perder a corrida.  Observo as copas das árvores em busca de pássaros e micos. Sigo os veios das cascas das árvores à procura de seres escondidos. Aguço os meus ouvidos para distinguir os sons que o vento carrega.  

Têm sábados que me premiam com a gentileza de uma natureza colorida.

Têm sábados que me afagam com o sopro do vento carregado de cheiros de flores.

Testemunhei a beleza de um céu azul através do espelho d’água.

Gosto dessas transformações, desse respirar invisível, dessa teia alimentar, desse ciclo biológico, desse ciclo de vida.

As manhãs de sábados sempre me foram as preferidas. E nesta manhã passei de observador a observado. Estava sendo vigiado por seres escondidos. Percebia que entre as folhagens e nas copas das árvores existiam olhinhos diversos me acompanhando por toda trilha.

Eu estava visível aos olhos camuflados da natureza.

Hoje, fui presenteado com a claridade de um sábado de outono que há muito não existia.

Pois, quando dei por mim, eu estava sendo observado por Deus através dos olhos de seus filhos.


Paulo Francisco


Lumiar by Beto Guedes on Grooveshark

Um comentário:

maria teresa disse...

Temos este gosto em comum...Gosto das manhãs de sábado,sempre gostei, na atualidade, mesmo estando aposentada, o meu dia preferido é o sábado!
Este "sábado" aqui testemunhado. deu-me vontade de sair deste silêncio que me rodeia e fazer como o Paulo, sair sem destino marcado, observando e deixando-me observar por seres criados por Deus e por fadas e duendes, criados pelo meu imaginário.
Abracinho meu!