infância






O alecrim enfeitava o caminho até chegar à sua casa. Gostava da roseira branca logo no portão. Tinha capim-limão, funcho ou erva doce, boldo, cidreira, malva e outras mais.

Era verde o seu quintal – um quintal medicinal. Cheirava a floresta em pleno subúrbio do Rio.

Tinha hortelã, salsa e cebolinha na lateral. Tinha romã num cantinho e espada e lança de São Jorge em outro lugar.  O tomateiro de fruto pequeno e doce era o mais cobiçado pelos moleques que ali frequentavam.

Nos fundos da casa, as árvores frutíferas: Nêspera, Cajá-manga, Manga-espada, Jamelão, graviola e goiaba rosa. Adorava a casa de meu amigo. Era tranquila, era descanso em dias de sol.

O seu quintal era alimento em tardes famintas e curativas em dias febris.

Nossa rua de asfalto escondia os quintais das casas mais antigas.

- Coooooorrrre! Ela está vindo!!!!!!!¨

Saíamos às carreiras com as blusas lotadas de frutas roubadas da casa de uma Senhora (Não me lembro de seu nome) que preferia ver o fruto apodrecer no chão a oferecer para nós, meninos da rua, simplesmente pelo fato de jogarmos bola próximo ao seu portão.

- ¨Moça devolve a bola aííí, moça!¨

Implorávamos a devolução da bola mesmo sabendo que era em vão. Pois, quando voltava, voltava furada, rasgada pelas mãos da bruxa encrenqueira que falava palavrão. A solução era uma vaquinha e uma bola nova para o outro dia de sol. Se fosse hoje, gritaríamos: somos brasileiros, não desistiremos nunca! Éramos moleques e ríamos de sua irritação.

O meu amigo era diferente. Ele sentava conosco em seu portão e nos contava histórias, nos dava conselhos e nos incentivava a estudar. A bola nunca caía em sua casa e nunca roubamos uma fruta sequer de seu quintal. Não precisávamos de atos ilícitos num lugar que nos dava total liberdade pra entrar.

Não sei onde esse meu amigo está. Mas sei onde ele foi enterrado. Não sei se no seu caminho agora, tem alecrim dourado, rosas brancas e frutas doces. O que sei de verdade é que ele ficou plantado em meu coração.

O meu amigo tinha a idade de ser meu pai. Mas Deus achou melhor ele ser somente o meu melhor amigo.

Deus sabia o que estava fazendo.

Paulo Francisco





Alojá Yang - Gira das Ervas by Luli e Lucina on Grooveshark

Um comentário:

isa disse...

Tão bonito este momento,Paulo.
Tem reunido o aroma da Infância,tem
a ternura dos verdes anos.
Beijo.
isa.