ao pé do ouvido





Não me interessa a terceira ou a quarta dimensão.  Não quero estar dentro de histórias que não me pertencem.  Sim, me deixe fora de seus problemas, não faço parte deles. Sou um mero expectador distante de suas aflições e decisões.  Não faça de minha bondade o seu expurgo diário, pois já tenho as minhas próprias ansiedades pra serem vomitadas; as minhas próprias decisões a serem encaradas.

Quanto menor a aranha, maior é o seu veneno.

Não quero e não vou mais aceitar que me escolha pra ser o seu grilo falante – cansei.

Estou farto de sua dualidade proposital.

Os esquizofrênicos sabem o que fazem.

Hoje, em minha janela, a tela é cinza, pois chove uma chuva aflita e densa. Dane-se o cinza! Dane-se a chuva!  Dane-se tudo aquilo que venha tentar me impedir de caminhar, prosseguir no meu caminho sonhado. Já tenho a minha própria sombra que me acompanha, não preciso de outra pra ser carregada em meus ombros não tão largos assim. Aguento-me, suporto-me, mas só a mim.

Não, não sou egoísta, sou humano. Tenho as minhas incertezas. Também sei ser fraco. Mas nem por isso te faço trampolim de meus medos e anseios. Tento nadar com as minhas próprias braçadas – sei até onde posso ir.

Os lepidópteros sabem o vento que enfrentam.

Não corras sem antes saber se terás fôlego para chegar até o final. Não corras achando que estarei no meio do caminho para oxigenar o seu peito. Não estarei. Estarei longe numa direção contrária. Por quê? Simples. Preciso seguir minha vida sem interrupções desnecessárias; sem o egoísmo alheio, sem as suas atitudes insanas. A minha loucura já me basta.

Não me olhe como se fosse o fim do mundo. Não é. É o começo de um novo mundo, pra mim e talvez para ti. A decisão é sua, os pulsos sãos seus, a carne é tua. Sei o que vejo; sei o que quero; sei o que tenho.

Encho o meu copo conforme a minha sede.

Quando caio, levanto-me, enxugo o sal de minha face e continuo. Protejo-me das sombras mergulhando de peito aberto na ardência do sol. Sim, banho-me de sol de manhãs iniciadas. Cubro-me das sombras de tardes definhadas.

Quando me calo, sou covarde, quando falo, sou perverso. Talvez eu seja tão covarde e tão perverso quanto necessário a tua sobrevivência. Mas, acredite, sempre fui verdadeiro e inteiro - diferente de ti que te escondes numa superfície prateada.

Enganaste por muito tempo com teu jeito manso, com imagem mentirosa e atitudes falsas. Agora, a máscara caiu revelando-me o meu verdadeiro eu.

Hoje, declaro-me livre de ti. Estilhaço-me do outro lado do espelho. Permanecendo-me, aqui, em minha verdadeira história; em minha única dimensão. Pois tu não eras eu. Eras simplesmente o reflexo de um ser maldito encarnado em mim.

Paulo Francisco

4 comentários:

maria teresa disse...

Tu num reflexo! O que és, o que queres ser, o que vês, o que renegas, o "eu" e o "não eu"! Um ser humano em meditação...
Vai ser uma luta constante, partir o espelho não é solução, melhor será a "adaptação" na existência de dois, ou mais, e assim será um ser humano mais completo:):):)

Creio que não é preciso dizer quev gostei desta "meditação" seja ela real ou ficcionada!

Abracinho meu

may lu disse...

"Qualquer situação na qual você se encontre é um reflexo exterior do seu estado interior de existência."
-- El Morya

Um abraço cheio de delicadezas!!

SOL da Esteva disse...

Caro Paulo

Uma reflexão brilhante sobre a nossa identidade.
Quem se conhece, sabe. Aquele que não vê o seu próprio reflexo, desconhece o seu interior, a sua personalidade.
Quebrar essa janela para se encontar, é um caminho. Manter os olhos fechados para não se ver, uma negação.
Magnífico.

Abraços


SOL

Maria Luisa Adães disse...

Numa outra Dimensão se pode viver por vezes.

Já tenho sentido que saio da minha Dimensão e vivo outra vida e continuo a ser eu.

Mas volto sempre à minha Dimensão, não quero ficar fora do meu lugar.

Gostei muito do que escreveu neste texto, com muito interesse.

Gostei de o encontrar nos
"7degraus" e não sei se o conhecia, mas me parece que não.
Mas vou ficar por aqui!

Maria luísa